‘Pátria Armada’ Mostra um Brasil Dividido

A mágica praticidadePátria Armada da Internet e do crowdfunding (Catarse, neste caso) permitiu que no final de 2014 e início de 2015 chegasse às bancas brasileiras este quadrinho cem por cento brasuca. Pátria Armada, porém, expressa o quanto o quadrinho nacional cresceu por seu contato internacional com os superpesados da área – empresas como a Marvel ou a DC –, para os quais vários artistas brasileiros têm trabalhado há algum tempo. Esse, aliás, é um dos desenvolvimentos mais interessantes da área, desde os primeiros ensaios de internacionalização na década de 1980 (quando a Europa é que fazia esse outsourcing com desenhistas do Brasil).

É o caso do experiente Klebs Junior, paulistano que trabalhou para as duas gigantes citadas, além de outras ianques como Malibu e Valiant (ele trabalhou também para a mídia mainstream brasileira, como os jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, e as revistas Veja, Época e Placar). Como um dos cabeças do Instituto dos Quadrinhos e com um currículo desses – que inclui doze anos de experiência ensinando quadrinhos em várias instituições – não deve ter sido difícil reunir os fundos para o projeto Pátria Armada, uma história fechada em três episódios.

O primeiro número da HQ deixa claro que esta é uma história alternativa em que o Golpe de 1964 e a decorrente resistência armada levaram a uma persistente guerra civil. A aventura se passa em janeiro de 1994 desse passado alternativo, conforme o leitor fica sabendo na terceira página. Pouco adiante, depois de ultrapassarmos uma magnífica página dupla com cena de combate arrasador em plena Avenida Paulista, o leitor também descobre que se trata de uma aventura de equipe de super-heróis – algo que a capa, com sua alusão a Tropa de Elite, não deixa transparecer.

Há um mulato rastafári gigante, um índio que manipula a eletricidade, um fraPátria Armada page samplenco-atirador nordestino e uma morenaça com pinta de ser versão tropical da Viúva Negra da Marvel. O chefe é um cara de meia-idade chamado Venâncio. A equipe tem um elenco meio aberto, pois a história envereda pela linha narrativa do recrutamento de uma garota com poderes – mas típica adolescente paulistana pentelha e um perigo na escola de ensino médio de onde é apanhada por Venâncio. Em uma base aérea em São José dos Campos, onde a garota, Cristina, será treinada, encontramos o resto do bando. Os personagens vão se apresentando aos poucos, e a única história de origem que temos neste primeiro número é a do tenente Guari, o índio-poraquê.

Além de armar o palco e apresentar um pouco das habilidades e personalidades dos heróis, Klebs Junior mostra como essa realidade alternativa se formou: logo depois do golpe de1964, “lideranças civis e militares se uniram, formando o grupo legalista e finalmente começou a resposta armada”. É como uma espécie de Revolução de 32 que pegou e que já dura trinta anos sem uma resolução, com o Brasil dividido entre Federalistas (os militares golpistas) e Legalistas (a resistência). O final do gibi traz quatro páginas tipo montagem com pseudo-matérias de jornal e revista e mapa escolar, expandindo esse aspecto especulativo e histórico da HQ.

Junto com essa história alternativa a gente encontra a suposta razão do surgimento dos super-heróis tupiniquins de Klebs Junior, na forma de uma “justificativa” científica ou pseudocientífica: uma bomba química de propriedades não especificadas foi detonada em São Paulo em 1972, levando a uma onda de doenças genéticas por todo o país. Os supers seriam, portanto, mutações positivas geradas por essa contaminação – colocando todos eles, aliás, na faixa dos vinte anos de idade.

Ficção científica do tipo história alternativa tratando da divisão do Brasil existe desde que a noveleta clássica de Gerson Lodi-Ribeiro, “A Ética da Traição”, foi publicada na Isaac Asimov Magazine em 1993. As especulações de Klebs Junior, porém, são temperadas por uma boa dose de gozação dirigida aos mitos nacionais, a certas figuras políticas e ao comportamento do brasileiro. E enquanto os seus heróis podem ser super-humanos em suas capacidades, isso não quer dizer que sejam particularmente espertos ou compenetrados.

Os Supremos_Segurança NacionalDe fato, o gibi de Klebs Junior compara-se a, por exemplo, Os Supremos: Segurança Nacional (2002-2004), de Mark Millar & Bryan Hitch, no relativo cinismo dos personagens e na qualidade moralmente subversiva dos quadrinhos de super-heróis. E meio pós-modernista no modo como mostra seres quase divinos em suas capacidades, agindo sem muita noção e sendo presa de traços adolescentes de caráter. Em Pátria Armada os heróis também estão subordinados a uma pragmática estrutura paramilitar e científica (mesmo que não tenha o lustre da SHIELD), e a equipe não hesita em atirar em técnicos desarmados, quando invade uma base secreta inimiga, para prevenir a detonação de outra bomba química sobre São Paulo.

Eu adorei, nesse sentido subversivo, ver a equipe de Venâncio de folga enchendo a cara num bar fuleiro, desses com pilhas de caixas de garrafas ocupando parte do espaço interno. As fisionomias e os sotaques brasileiros, a geografia e as espetadas em nossos clichês culturais também são um refresco enriquecedor de nossa noção daquilo que se pode fazer com quadrinhos. Certamente o desenho e a colorização não deixam a desejar a nada made in USA. Se o roteiro de Klebs Junior é meio entrecortado e confuso com todas as informações que ele lança no primeiro número – e se a sua escrita mereceria uma boa revisão –, há espaço para evoluir e aperfeiçoar narrativa e intriga, nas duas edições faltantes. Edições que eu vou aguardar com grande interesse.

O gibi fecha com uma página tratando dos próximos lançamentos do Instituto dos Quadrinhos. Nela, Klebs Junior afirma que o “objetivo é ajudar na criação de uma indústria de quadrinhos eficaz e contínua, independente das oscilações da economia nacional, com produtos com qualidade e identificação com o leitor brasileiro”. Leia-se aí que financeiramente ele vai se apoiar no crowdfunding, como no projeto de Pátria Armada. É talvez uma estratégia adequada aos nossos tempos, mas é preciso aguardar para conferir se vai ser efetiva na dimensão que o projeto pretende. Na torcida.

–Roberto Causo

Pátria Armada N.º 1. Capa, roteiro e arte de Klebs Junior, arte final de Wellington Diaz & Nelson Pereira, cores de Renne Stefani, Carlos Lopez e Marcio Menyz. São Paulo: Instituto dos Quadrinhos, 2015, 52 páginas. ISSN: 2-358474-220140-01. Mais em www.patriaarmada.com.br

 

Pátria Amada capa 2Continuando a minissérie de Klebs Junior, a revista Pátria Armada N.º 2 deve chegar às bancas no início de abril, segundo nota na revista Mundo dos Super-Heróis N.º 65.

 

 

 

 

 

 

 

 

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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