“O Perfuraneve” vai além da relação com o filme

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Recentemente a Editora Aleph, de São Paulo, conhecida pela publicação de clássicos da ficção científica anglo-americana, no seu intenso processo de diversificação assumiu a publicação de histórias em quadrinhos, começando com Violent Cases (2014), a primeira colaboração entre Neil Gaiman e Dave McKean.

Todo ambientado num gigantesco trem do pós-apocalipse, este O Perfuraneve é uma HQ francesa da década de 1980, bem dentro daquilo os quadrinhos faziam então nos álbuns de Les Humanoïds Associés e em revistas como Métal Hurlant e sua irmã americana – talvez mais famosa –, Heavy Metal. O posfácio de Jean-Pierre Dionnet pinta um quadro muito dinâmico do campo dos quadrinhos daquela época na França, e menciona outras revistas importantes, como Pilote e Charlie Mensuel. A tônica estava num violento questionamento sócio-político de um mundo ainda enfiado na Guerra Fria e recém-saído da Guerra do Vietnã, forçado a testemunhar a Guerra do Afeganistão e a persistência dos regimes autoritários na África, Ásia e América do Sul.

O diretor sul-coreano Joon-ho Bong adaptou a HQ para o cinema (com lançamento inicial no NetFlix) como Expresso do Amanhã (Snowpiercer; 2013), levado aos cinemas brasileiros em fins de agosto deste ano. A adaptação sugere que, torcendo um ponto aqui e ali, a imagem de forte simbolismo criada originalmente pelos quadrinistas Jacques Lob & Jean-Marc Rochette ainda cabe no nosso mundo pós-Guerra Fria. Um mundo forçado a testemunhar a “guerra contra o terror”, o advento do Estado Islâmico da Síria e do Iraque e a crise de refugiados na Europa, o aquecimento do planeta e a degradação ambiental culminando com a mudança climática. Na década de 1980, o estado corporativo ganhava corpo e sofria críticas, enquanto que, em nosso mundo posterior ao fim da URSS, o discurso vitorioso do capitalismo de livre-mercado é hegemônico, mas também sofrendo a crítica de Bong (dirigida à corporificação desse sistema, o self-made man vitorioso na luta darwinista social no seio gélido do mercado).

O próprio Dionnet se refere a uma qualidade universal dessa HQ: “Vivemos dentro [desse trem] e é por isso que não há dúvidas de que o livro vai ser redescoberto sob outra perspectiva e por outros leitores para quem isso não ser mais uma profecia (o observador se transforma naquilo que observa), e sim uma simples constatação do mundo em que vivemos.”

O que se nota imediatamente em “O Perfuraneve” (1984), a primeira das três histórias do imenso álbum com formato e cheiro de livro de arte publicado pela Aleph, é o clima retrô nos trajes de feitio soviético, no perfil das armas e nas fisionomias barbudas. A premissa de um trem em movimento perpétuo, carregando os remanescentes da humanidade depois que uma guerra entre dois blocos políticos levou à detonação de uma “bomba climática”, passa logo a evocar os três de refugiados durante a II Guerra Mundial – assim como as composições que levaram prisioneiros judeus para os campos de extermínio, ou ainda aquelas que enviaram dissidentes políticos do regime soviético para o degredo siberiano. A sociedade do trem é ela mesma uma cruel distopia.

Uma outra imagem do trem na Europa é a do Expresso do Oriente e os ricaços que nele transitam em busca do entretenimento exótico e sofisticado. Na metáfora do Perfuraneve, um trem como esse teria sido transformado no refúgio derradeiro quando explodiu a tal bomba que enfiou o mundo em temperaturas de era glacial. Os ricaços ainda estão lá, à testa do comboio. Os miseráveis e funcionários de baixo escalão ficam no fim do comboio, nos fundos.

Fugindo das condições retaguarda, Proloff, o herói da primeira narrativa, é pego fora do seu setor. Chamado de “fundista” por vir dos fundos da composição, é feito prisioneiro enquanto os burocratas militares discutem o que fazer com ele. Surge uma ativista social, Adeline Belleau, dirigente de uma ONG voltada para a “integração progressiva dos ocupantes dos vagões dos fundos”. Quando ela força a entrada para falar com Proloff, acaba ficando de quarentena com ele. A intimidade forçada e a afinidade de não terem simpatia pelos dirigentes do trem parece levar a um interesse amoroso entre os dois. Eles sofrem um tratamento degradante por parte dos militares, antes de serem enviados para a dianteira do comboio, convocados pelo próprio presidente.

O que segue é uma panorâmica das condições de vida no trem, com muitas situações diferentes, perturbadoras ideias de ficção científica (como um enorme carne de cultura cobrindo boa parte de um dos vagões), e momentos de humor inesperado. Os quadrinhos têm uma ótima variação de ângulos, e luz e sombra, mas o que se sobressai é a habilidade do roteirista Lob (1932-1990) com a dinâmica entre os personagens, mesmo que secundários. Como Dionnet aponta no posfácio, esses “homens têm caráter, seja ele medíocre, malvado ou simpático; as mulheres, ponto no qual muitos quadrinistas tropeçam, também o têm, seja a bela heroína ou as personagens do outro sexo, como costumávamos dizer …” Embora individualista convicto, o atormentado Proloff não é um herói capaz de pôr todas as coisas em ordem, dentro do malfadado trem. Os momentos da HQ passados na locomotiva diferem da interpretação que o filme deu, mas também investem na imagem da presença do homem como necessária à máquina – um estranho acessório, lembrete de um propósito perdido.

Após a morte de Lob em 1990, o roteirista de cinema e romancista Benjamin Legrand assumiu a escrita para mais dois álbuns da série, também presentes na edição da Aleph. A arte de Jean-Marc Rochette deixou o traço preto e branco para investir numa aguada de manchas fluídas e traços menos duros. O ganho em meios-tons em relação ao mero uso de retículas no primeiro trabalho é notável, e certamente a fase mais recente de Rochette acentua a desolação e a monotonia da paisagem – embora perdendo um pouco na expressividade dos personagens.

As histórias “O Explorador” e “A Travessia” tratam de uma outra composição, desconhecida da primeira. É o Desbrava-Gelo, e a continuidade direta entre uma história e outra é consequência da ascensão de um segundo herói individualista, Puig Vallès, ao conselho diretor do comboio. Puig, que começara como um explorador – pois o Desbrava-Gelo tem tecnologia para excursões ao mundo exterior ao trem –, enfrenta muitos desafios, colocados por diversas dissensões internas. A superioridade tecnológica em relação ao Perfuraneve também permite atualizações como experiências em realidade virtual – a companheira de Puig, inclusive, é a “escultora de imagens” Val, moça de coração gentil que é filha de um dos cínicos líderes da sociedade volante. A RV é a base do entretenimento alienante do Desbrava-Gelo, que também tem uma religião organizada, muito manipuladora, em conjunto com os militares.

As qualidades das duas HQs tardias são semelhantes às da primeira, mas o roteiro de Legrand não tem uma pegada tão forte nem a proximidade entre personagens e leitor, que Lob havia alcançado. Nem por isso deixam de ser interessantes e perturbadoras por direito próprio, e no conjunto o livro se afirma independentemente da relação com o filme. O posfácio de Dionnet que fecha o livro é enriquecido por impressionantes desenhos de produção feitos para o filme de Joon-ho Bong, tornando este livro um excepcional e raro volume de quadrinhos de ficção científica, grande exemplo da profundidade e força dos quadrinhos franceses, e um dos principais lançamentos da área em 2015.

–Roberto  Causo

O Perfuraneve (Le Transperceneige), roteiros de Jacques Lob e Benjamin Legrand, desenhos de Jean-Marc Rochette. São Paulo: Editora Aleph, 2015, 290 páginas. Tradução de Daniel Lühmann. ISBN: 978-85-7657-134-6

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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