Perdido em Marte: Sozinho no Planeta Vermelho

0

Em um período de menos de dez dias, eu assisti a dois filmes extremamente pragmáticos que se passam “em outro planeta”. O primeiro foi Evereste (Everest, EUA/AUS, 2015) que fala de uma equipe de alpinistas que foi atingida por uma nevasca no ponto mais alto da Terra. O segundo foi Perdido em Marte (The Martian, EUA, 2015) no qual o astronauta Mark Watney (Matt Damon) é dado como morto e deixado no planeta vermelho para se virar ou morrer, depois que uma tempestade força sua equipe a voltar para a Terra.

Perdido_em_Marte_1

O que ambos tem em comum? Bom, os dois são histórias de sobrevivência que se passam em ambientes inóspitos (um em outro planeta e o outro em quase outro planeta). Ambos são histórias que falam de como soluções pragmáticas são empregadas para resolver problemas aparentemente impossíveis – e como esses ambientes inóspitos são igualmente pragmáticos, e ambos os filmes mostram como uma situação pode mudar de um paraíso em um momento para um pesadelo no momento seguinte.

No entanto, Evereste é uma história verídica que não pode se dar ao luxo de ser optimista. Houve sim uma equipe de pessoas que foi atingida por uma nevasca descendo o pico mais alto do mundo e dos sete protagonistas que o filme acompanha (dois líderes, um guia, um jornalista, um alpinista texano, uma japonesa e um carteiro) somente dois desceram da montanha com vida.

Perdido_em_Marte_3

Já Perdido em Marte é uma história ficcional adaptada de um livro homônimo escrito por Andy Weir e que se tornou um sucesso de vendas nos Estados Unidos e no Brasil, sobre um homem extremamente inteligente que emprega seu intelecto – e bom humor – para sobreviver a condições adversas. Semelhante a outro filme cujo(a) protagonista é um(a) astronauta, Gravidade, Perdido em Marte não é um conto de alerta sobre os perigos da viagem espacial, mas uma história sobre a vontade humana de sobreviver, mesmo quando tudo ao seu redor conspira para o contrário.

Ridley Scott que, nos últimos anos nos presenteou com catástrofes cinematográficas como Prometheus (2012), O Conselheiro do Crime (2013) e Êxodo: Deuses e Reis (2014) finalmente chegou à conclusão de que trabalhar com um bom roteiro é meio caminho andado para um bom filme, uma lição que ele não seguia há muito, muito tempo. O resultado é o seu melhor filme desde… bom, Blade Runner de 1982 (embora eu tenha gostado de Falcão Negro em Perigo de 2001 e Cruzada de 2003).

Perdido_em_Marte_2

Escrito por Drew Goddard que trabalhou em O Segredo da Cabana (2012), Guerra Mundial Z (2013) e Buffy, A Caça Vampiros, o filme acompanha duas narrativas simultâneas: Watney tentando se virar em Marte e a NASA aqui na Terra se virando para ver como trazê-lo de volta. Aliando aulas de ciência com ótimos diálogos e muito, muito humor, o filme escapa inteligentemente do melodrama, constantemente nos entregando surpresas, risos e um pouco para se refletir sobre a situação surreal na qual o protagonista se encontra.

O primeiro grande trunfo de Goddard e Ridley Scott é ter empregado Matt Damon no papel principal. Feito uma carreira em filmes em que seu personagem precisa ser resgatado por alguém como O Resgate do Soldado Ryan (1998) onde ele interpreta o Ryan e Interestelar (2014) onde ele interpreta um astronauta perdido em um planeta deserto (semelhanças?) Damon entrega cada fala e cada gesto com discrição e nuance, características sempre presentes em seu estilo de atuação.

Perdido_em_Marte_4

O resto do elenco é de categoria A, mas a atenção é focada mesmo no personagem de Damon. Jeff Daniels, Sean Bean, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Kate Mara e Chiwetel Ejiofor entregam todos boas atuações condensadas em 140 minutos de filme. Ridley Scott também abriu mão de algumas de suas manias e exageros, procurando contar essa história de uma forma mais simples e direta, o que foi uma sábia escolha. Tirando alguns excessos do final (eu preciso ver se eles batem com o livro – que eu ainda não li) o filme funciona perfeitamente bem, e Marte nunca esteve tão belo em cena quanto neste filme.

No geral, não há nada que o impeça de assistir a este filme. Perdido em Marte é divertido, inteligente, possui ótimas atuações e visuais incríveis. Não necessariamente faz você refletir sobre um determinado assunto, e não possui o impacto emocional que, por exemplo, Evereste tem. Mas ao menos você sai do cinema sabendo que não foi enganado, e, vindo deste diretor, isso é uma vitória por si só. É uma pena, portanto, que ele retorne para dirigir Prometheus 2.

Comments

comments

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here