Perto do coração da América: Star Trek

Há uma tendência nos filmes de grande orçamento, atualmente, de pegar questões pontuais da nossa sociedade (ou ao menos da sociedade norte-americana) e colocá-las na tela. É claro, vale lembrar, que o cinema é uma forma do mundo e da sociedade de expurgar seus próprios demônios, e que as discussões variam conforme a época em que elas estão.

Assim como aconteceu recentemente com Homem de Ferro 3, Além da Escuridão: Star Trek (Star Trek: Into Darkness, EUA, 2013) pega os tempos em que vivemos, exagera-os, os deixa caricaturados e os coloca no cinema. O empreendorismo apresentado por J.J. Abrams e companhia no primeiro filme, de desvendar novos mundos, de ir audaciosamente até onde ninguém foi, isso acabou. O objetivo agora é mais político e sombrio. A palavra para o novo filme é “desilusão”.

James T. Kirk e a tripulação da Enterprise voltam de uma missão que impediu um vulcão de dizimar toda uma raça alienígena em um planeta distante. No entanto, eles foram vistos pelos habitantes daquele mundo e as punições acadêmicas para Kirk, Spock e os outros, serão severas. Tudo pode esperar, é claro, pois uma nova ameaça surge e se Kirk não estiver em sua nave não teríamos um filme.

John Harrison (Benedict Cumberbatch) é um ex-agente da Frota Estelar que se voltou para o lado negro da força e destruiu um arquivo público em Londres, matando homens mulheres e crianças. As coisas não fazem sentido para Kirk, no entanto, que logo descobre que há mais por trás do que está sendo revelado.

A morte de um personagem importante coloca Kirk e a tripulação da Enterprise em perseguição para capturar e/ou matar John Harrison. O vilão está refugiado no planeta Kronos, habitado pelos amáveis e educados (só que não) Klingons, que até então, não tinham dado o ar das graças. Bem, as tensões entre o Império Klingon e a Federação são grandes e qualquer passo em falso pode desencadear uma guerra. Isso não impede os protagonistas de entrarem quebrando tudo e atirando para todos os lados até que Harrison aparece para resgatá-los.

Ou é isso o que os roteiristas Roberto Orci, Alex Kurtzman (que haviam trabalhado no primeiro filme) e Damon Lindelof (do hediondo Prometheus) querem que nós pensemos. O que acontece em seguida é uma sequência de reviravoltas intercaladas por cenas de ação super desenvolvidas, uma profusão de cor, diálogos e som, com aquela reviravolta no final. Carcterísticas de Abrams desde seu primeiro longa, Missão Impossível 3.

É importante pensar neste filme como um jogo de xadrez. Há dois grandes jogadores. De um lado, Harrison, que pouco a pouco vai se mostrando mais do que ele parece ser e do outro Kirk, Spock e o restante da tripulação da Enterprise. Todos sabem as regras do jogo. Que ganhe o melhor. Ou não.

Se as cenas de ação são bem orquestradas, os movimentos estão errados. O filme passa tempo demais no espaço (para alegria dos fãs mais fervorosos do gênero Space Opera), quando poderia explorar mais os contornos arquetípicos de uma Londres e São Francisco altamente futurístas. O que temos, no entanto, são correrias em corredores da Enterprise e uma perseguição consideravelmente boa em São Francisco só no final do filme

Outro ponto um pouco decepcionante é a trilha sonora de Michael Giacchino, que se inspira demais nos temas já compostos ao invés de trilhar novos caminhos. No entanto, Giacchino, que já venceu um Oscar por Up: Altas Aventuras é um excelente compositor e são nos momentos mais emotivos que sua orquestração ganha vida e enche as telas.

Todo o filme é conservador. A mensagem é clara e a mesma de Homem de Ferro 3: os Estados Unidos criam seus próprios inimigos. Isso é verdade, mas é notícia velha. E não apenas é velha como já foi desenvolvida por cineastas mais inteligentes, como Christopher Nolan em O Cavaleiro das Trevas, e Bryan Singer em X-Men: O Filme. Mas ao contrário de Homem de Ferro 3, Star Trek conta com um grande elenco que consegue levar às telas a carga emocional e os dilemas morais que são exigidos, mesmo que a mensagem seja transmitida para o espectador de uma forma juvenil e pasteorizada.

Abrams triunfa pois fez uma sequência que não cai no estúpido. Isso é raro (pense em Transformers). Star Trek: Into Darkness é muito provavelmente melhor do que seu antecessor. Mais sério e com mais ação. Sua grande carta na manga, seu trunfo, aquilo que o diferencia do primeiro filme e da maioria dos grandes blockbusters atuais, é seu vilão. Pela primeira vez em muito tempo, a franquia de Star Trek tem um vilão à altura. Tão à altura, que ele é melhor do que os próprios heróis.

Cumberbacht deita e rola durante todos os 132 minutos do filme, de tal forma que ele engole todos os seus coadjuvantes. Isso inclui Chris Pine, Zachary Quinto e companhia limitada. Surpresos? Eu não. Isso pode ser tanto bom quanto ruim, e na maioria dos casos é ruim, pois, por definição, não se pode torcer para o vilão. No entanto, este não é o caso. É nos olhos do antagonista que os dilemas da nossa sociedade e dos personagens – tanto dele quanto dos heróis – ganham vida. Quem são os verdadeiros vilões desta história? Esse questionamento é Cumberbacht quem traz às telas. Está nos seus olhos. E esse é um efeito especial que nem o grande J.J. Abrams consegue conjurar.

Star Trek: Into Darkness. Estados Unidos, 2013. 132 minutos. Dirigido por: J.J. Abrams. Escrito por: Alex Kurtzman, Roberto Orci e Damon Lindelof. Produzido por: J.J. Abrams, Alex Kurtzman, Roberto Orci, Damon Lindelof e Bryan Burk. Música de: Michael Giacchino. Fotografia de: Daniel Mindel. Edição de: Maryann Brandon e Mary Jo Markey. Estrelando: Chris Pine, Zachary Quinto, Benedict Cumberbatch, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg, John Cho, Anton Yelchin, Bruce Greenwood, Alice Eve, Leonard Nimoy e Peter Weller. Data de estréia oficial do Brasil: 14 de junho

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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