Por que o novo pôster de Star Wars é tão importante

Eis que ao abrir o Twitter em plena segunda-feira, pós novo pôster de Star Wars e pré novo trailer, me deparo com a mais nova polêmica da vez: algumas pessoas apoiam um boicote ao novo filme por… bom, por ter personagens negros! A hashtag #BoycottStarWarsVII foi usada para acusar a franquia de “promover o genocídio branco”. E, claro, as mulheres não saíram impunes (nunca saímos), já que a personagem central do pôster é… uma mulher!

Pois bem, o que teria motivado isso? Provavelmente o novo pôster, afinal de contas, a personagem de Daisy Ridley, Rey, aparece em primeiro plano. Além dela, vemos Finn, interpretado por John Boyega, que teve bastante destaque no trailer e que é negro. Não sei por que diabos as pessoas resolveram reclamar, mas aparentemente não adiantou o aviso do próprio J. J. Abrams de que haveria mais diversidade, algo que é totalmente compatível com o universo de Star Wars.

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Ou seja, não adianta vocês reclamarem. Vai ter negro em Star Wars SIM, e no papel principal! Sem contar, é claro, a maravilhosa Lupita Nyong’o, que também está no filme. Aliás, essas pessoas realmente assistiram Star Wars? Porque, olha, o Lando Calrissian é negro também, sabem? E o Mestre Jedi Mace Windu? E a voz do Darth Vader, de ninguém menos do que James Earl Jones? E tá pouco, viu?

Não posso falar pelos negros sobre representatividade. Sou branca. Mas posso falar pelas mulheres. E vai ter mulher protagonizando a história SIM! Já passou da hora. Adoro a Princesa Leia, mas não dava mais para ela ser a única mulher principal de novo. Vou contar uma história para ver se vocês entendem por que representatividade é algo importante:

Quando saiu o episódio II, estava na terceira série e resolvi montar um fã-clube com o pessoal da minha sala, e cada aluno teria a identidade de um personagem. O problema encontrado: éramos três meninas e três meninos, mas não tinha personagem para todas nós. Não dava para sermos três princesas Leia e alguém teria de ser o C3PO ou o R2D2. Conclusão: desistimos da ideia.

Você consegue imaginar a frustração de três garotas de nove anos tentando decidir quem poderia ser a ÚNICA mulher do grupo? Pois é. Imagina só se tivessem outras mulheres protagonizando a série? Quando vi que a Rey era a principal, fiquei muito feliz. Muito mesmo. Porque consigo imaginar meninas de oito ou nove anos brincando de Star Wars e podendo escolher entre a Leia, a Rey, Amidala (que veio com a segunda trilogia) e a personagem da Lupita. Podendo criar um fã-clube sem problemas.

E é por isso que dói tanto quando preciso ler algum idiota que se diz fã de SW dizendo que a série está “promovendo o genocídio branco”, ou que não vai ver Mad Max porque a Imperatriz Furiosa é a personagem principal. Pode parecer bobo não conseguir criar um fã-clube em que cada membro seja um personagem, e não tenham personagens suficientes para as meninas, mas imagine isso numa escala maior. Imagine todas as garotas que não conseguem se ver representadas em uma das maiores franquias de ficção científica do cinema.

Consegue entender o que elas sentem? Conseguem entender que muitas delas sentem que não pertencem a esse universo? Quando elas pertencem! Toda menina tem tanto direito de gostar de Star Wars quanto qualquer garoto. E de se sentir representada ali, de ver personagens no cinema que ela possa se fantasiar, que ela possa usar como modelos para a sua vida, que ela possa ser.

Representatividade é importante, sim. E se você não consegue enxergar isso, talvez precise rever algumas coisas na sua vida. E talvez precise rever Star Wars também, para ver se dessa vez consegue entender a mensagem da franquia, que nem de longe tem qualquer semelhança com esse discurso pregado hoje no Twitter por pessoas que se dizem fãs. Em pleno ano de 2015, ouvir de pessoas que gostam da série que isso não é necessário, ou que elas vão boicotar um filme única e exclusivamente por ter personagens negros e mulheres como protagonistas, é tão absurdo que não dá para assimilar. Ter uma mulher no centro daquele pôster é incrível, e é uma pena que muitas pessoas não consigam enxergar como a falta desses personagens é um problema recorrente no cinema ou na literatura.

Recentemente também conheci o Universo Expandido de Star Wars. E lá tem mais mulheres. Tem mais personagens diferentes. Tem representantes LGBT, tem negros, tem crianças. Espero que essa nova leva de livros, desenhos e filmes tenha essa pegada de representatividade, que englobe a todos, e que cada criança, adolescente ou adulto consiga criar identificação com a série. Adorei a Mara Jade, em Herdeiro do Império, porque vi algo que faltou na minha infância. Adorei a Rey pelo mesmo motivo. Então, se querem boicotar Star Wars: O Despertar da Força, vão em frente. A franquia não precisa de vocês, ela é muito maior do que isso, e certamente vai conseguir muito mais fãs sendo mais representativa.

Gabriela Colicigno

Jornalista, ruiva, nerd, geek e louca por chocolate. Passa a maior parte do tempo do dia no computador, vendo seriados no Netflix, lendo um livro, ouvindo música ou brincando com os gatos.

4 comentários em “Por que o novo pôster de Star Wars é tão importante

  • 19/10/2015 em 21:34
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    Isso sem contar o belo trabalho artesanal feito nesse pôster que temos que aplaudir de pé, principalmente porque os pôsteres de hoje em dia são pura montagem de fotos. Parabéns pelo texto!

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  • 20/10/2015 em 05:57
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    Como comentei outro dia, a Internet está deixando um monte de gente ociosa. Haja falta do que fazer. Que tal mandar umas pilhas de roupas pra passar pra esse povo?

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  • 23/10/2015 em 15:58
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    Só para deixar claro, já foi esclarecido que a tal notícia do boicote era trollagem.

    Agora, troll ou não, isso não remove nenhuma das verdades do seu texto, o qual concordo 100%. Tem que ter protagonista mulher, negro, gay, trans, criança, velho, tem que ter de tudo nas histórias, pois no mundo tem de tudo!

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    • 24/10/2015 em 14:01
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      Pode ter começado como trollagem, mas as pessoas levaram a sério e REALMENTE começaram a destilar ódio na internet. Não importa como começou, porque tomou proporções que saíram do controle. Deixou de ser uma brincadeira e virou algo real, em que minorias foram rechaçadas por protagonizarem um filme.

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