Publicações marcam 50 anos da franquia Star Trek

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Star Trek, a franquia de ficção científica iniciada por Gene Roddenberry em 1966, com o lançamento da série de televisão Jornada nas Estrelas, completou 50 anos de idade e de atividade em 2016. Além do lançamento do terceiro filme do reboot de Jornada nas Estrelas, Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek Beyond), e o anúncio de uma nova série de TV para 2017, o mercado brasileiro de livros e revistas repercutiu a importância dessa data.

“Nos Domínios da Escuridão” faz ponte entre segundo e terceiro filme do reboot

Capa: Tim Bradstreet
Capa: Tim Bradstreet

A Mythos Editora publicou em setembro um belo livro em capa dura com a HQ Star Trek: Nos Domínios da Escuridão, com roteiro de Mike Johnson e desenhos de Erfan Fajar e Claudia Balboni. A história pega onde o filme Star Trek Além da Escuridão parou: o Capitão Kirk e sua turma ainda estão às voltas com as iniciativas fascistoides do Almirante Marcus e a sua infame Seção 31, no seu empenho secreto em militarizar a acoxambrada Frota Estelar e conduzir a Federação Unida dos Planetas à guerra total contra os klingons.

Os alienígenas belicosos ainda estão ressabiados com a incursão de Kirk, Spock e Uhura no seu planeta Cronos, na qual “capturaram” o super-homem e supervilão Khan. Kirk quer fazer algo a respeito, mas antes precisa lidar com o cio aloprado de Spock, o Pon Farr, que o obriga a voltar a Vulcano para acasalar-se com a sua prometida, neste caso, a bela T’Pring. Isso, claro, no episódio da série clássica que apresentou o conceito, (“Tempo de Loucura”), pois no reboot Vulcano foi implodido, de modo que é à colônia Novo Vulcano que ele precisa ser levado antes que seu sangue ferva.

Mas o meio ambiente de Novo Vulcano é substancialmente diverso daquele do planeta original em que os vulcanos evoluíram. Isso gera um desequilíbrio ainda maior na personalidade de Spock, levando-o a se unir a um grupo de vulcanos renegados, enlouquecidos, que se esconde em áreas inóspitas do planeta. A solução encontrada pela Comandante Carol Marcus — apresentada no filme Star Trek: Além da Escuridão (nessa linha alternativa) — e pelo Dr. McCoy tem o tipo de techno-babble que caracteriza a franquia. É interessante que a premissa, mesmo sendo um pouco exagerada, se alinha com reflexões de um escritor de FC como Charles Stross, que observa o quão difícil a colonização espacial seria para organismos como o nosso, surgidos em condições bioquímicas e ambientais muito específicas.

Um dos problemas deste primeiro capítulo do livro é que o artista e os coloristas sofrem demais não apenas a pressão de reproduzir as fisionomias de Christ Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Karl Urban e o bando todo, mas também de se aproximar da estética criada por J. J. Abrams para o reboot — com flares de lente e tudo o mais. Assim, não apenas os rostos ficam muito artificiais, como o tempo todo o leitor busca o botão do contraste. Mas terminado o episódio em Novo Vulcano, artista e coloristas são trocados e as coisas ficam um pouco mais nítidas. Esse capítulo busca atualizar a figura e a anatomia dos gorns, os reptileanos do episódio “Arena” (baseado num conto de Fredric Brown) da série clássica. Neste caso, eles parecem algo saído do videogame Mass Effect.

A trama de aventura se dá na superfície de Partenon, planeta onde um grupo de gorns entra em choque com mineradores humanos. Como se pode antecipar, nem tudo é como a primeira impressão dá a entender, e o episódio incorpora uma crítica ao tipo de relação incestuosa entre forças armadas e comércio ou atividade industrial, visto tão frequentemente no contexto americano.

Os klingons voltam no segmento “O Conflito de Khitomer”, que abre com uma colônia klingon sendo atacada. Enquanto isso, Kirk dá a boa notícia ao Tenente Hikaro Sulu de que a irmãzinha dele, Yuki, foi transferida da academia direto para a Enterprise. Sulu não fica nada feliz… Logo, o pessoal de Kirk está envolvido diretamente no conflito — que revela mais uma tramoia da maliciosa Seção 31, com reviravoltas que envolvem a família de Sulu.

O produtor e roteirista Roberto Orci, que dizem ter deixado tempestuosamente a produção do terceiro filme, foi o consultor de roteiro de Star Trek: Nos Domínios da Escuridão. Fica claro que as histórias desenvolvidas no álbum dariam um filme por direito próprio, e bem dentro do clima da franquia revitalizada por J. J. Abrams — e adequada aos tempos atuais de ataques preventivos, desproporcionalidade tecnológica militar e extremismo alimentado por guerras no atacado. Vale conferir, e refletir.

A mais bela adaptação de um episódio clássico

Arte de capa: Paul Shipper
Arte de capa: Paul Shipper

Com roteiro do premiadíssimo escritor Harlan Ellison, “A Cidade à Beira da Eternidade” é tido como um dos melhores episódios da série clássica e uma obra importante dentro da ficção científica, ganhadora do Prêmio Hugo. O roteiro de Ellison, uma personalidade da FC e da fantasia com trânsito no cinema, televisão e quadrinhos, não foi aproveitado integralmente, porém. A mesma Editora Mythos traz este presente ao fã de Star Trek e de ficção científica, uma adaptação para os quadrinhos, fiel ao roteiro original do escritor e com maravilhosa arte de aquarela por J. K. Woodward.

Quem viu o episódio deve se lembrar de que, na superfície de um planeta que abriga uma estranha distorção temporal, o Dr. McCoy sofre um acidente, perde o juízo e se lança através de um portal que o leva até os Estados Unidos na década de 1930. Kirk e Spock, com a ajuda do guardião do tempo, vão atrás dele, chegando em um momento anterior. Enquanto os dois esperam a vinda de McCoy para impedir que ele inadvertidamente altere o futuro, Kirk se envolve com a filantropa e pacifista Edith Keller.

No roteiro original de Ellison, o pivô da encrenca é um tripulante chamado Beckwith, sujeito da pior espécie que trafica nos conveses da Enterprise “joias sonoras”, um tipo ilegal de “narcótico-onírico”. Descoberto, Beckwith foge para a superfície do planeta e é perseguido por uma equipe liderada por Kirk, Spock e a Ordenança Janice Rand. Essa premissa parece um pouco fraca, mas Beckwith como maçã podre no meio da tripulação é importante para a reflexão sobre as imperfeições da humanidade, presente no roteiro de Ellison.

Faz parte do jogo, na leitura deste álbum maravilhoso, comparar as escolhas de Ellison com o que Gene Roddenberry e os produtores da série clássica realizaram de fato no episódio em questão. Se você não o viu, deve ser fácil encontrar pelo menos uma descrição na Internet. Essa história em quadrinhos funciona perfeitamente, de qualquer modo, se você não conhece o conteúdo do episódio.

Assim, teria sido ótimo ver os enormes guardiões de gelo em sua cidade perdida, mas a série só conseguiu produzir um arco de pedra em uma planície estéril. Por outro lado, a Ordenança Rand tem uma atuação mais firme e determinada — e crucial para a situação que Kirk e Spock deixam para trás ao mergulharem no portal do tempo — do que o habitual na série, o que é muito positivo (a atriz Grace Lee Whitney saiu da série no final da primeira temporada, e não poderia fazer o papel). Mas toda a brincadeira de Spock construindo um “captador mnemônico de memória”, nos anos trinta e com componentes que ele qualifica como “pedra lascada e barro fofo”, não está presente e isso me soou como uma perda.

Enfim, o que os roteiristas Scott & David Tipton e o artista J. K. Woodward fizeram com o material de Ellison, tendo como referência o episódio levado ao ar, é encantador e envolvente. A arte aquarelada de Woodward insere o leitor no clima da Grande Depressão, com um domínio sutil de paisagem, ambientes, roupas e artefatos. Ele também é espantosamente hábil e sutil na representação das fisionomias dos personagens (especialmente as de William Shatner, Leonard Nimoy e Joan Collins — que faz o papel de Edith Keller). E é divertido acompanhar como ele homenageou Ellison (hoje com 82 anos) de várias maneiras — inclusive colocando sua fisionomia em um veterano da I Guerra Mundial que se revela muito importante para o enredo.

Outro ponto forte é a dinâmica entre Kirk e Spock — com mais peso do que a entre Kirk e Edith — como suporte para a discussão do quanto a humanidade teria evoluído das terríveis mazelas do século 20, até a quase utopia do século 23 em que Star Trek se desenvolve. A ressonância dessa questão sobre o nosso momento não deve ser subestimada — assim que surgem no passado da Terra, Kirk e Spock deparam-se com um sujeito em pé na proverbial caixa de sabão, clamando para uma multidão contra os imigrantes que vêm tirar os empregos dos cidadãos legítimos. Justamente o tipo de conversa que ouvimos hoje na Europa, e que elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos. “Bárbaros!”, diria o Sr. Spock.

Para além da celebração dos 50 anos de Star Trek, e para além do interesse por um livro atrelado a uma obra famosa da ficção científica, Jornada nas Estrelas: Cidade à Beira da Eternidade é um dos melhores lançamentos de quadrinhos deste ano. A tradução de Érico Assis não é tão ruim quanto a de Nos Domínios da Escuridão, e certamente não estropia irremediavelmente nenhum dos dois álbuns. Não deixe de conferir a deliciosa seção do livro em que Woodward relata os procedimentos técnicos que usou na produção dessa sofisticada HQ, e aponta todos os easter eggs que ele enfiou nos seus quadrinhos.

Arte: J. K. Woodward
Arte: J. K. Woodward
Arte: J. K. Woodward
Arte: J. K. Woodward

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Editora LeYa lança Guia da Saga Jornada nas Estrelas

Capa: Caio Monteiro
Capa: Caio Monteiro

Em 2009, a dupla Salvador Nogueira e Susana Alexandria publicou o Almanaque Jornada nas Estrelas pela Editora Aleph, hoje um livro esgotado. Em 2016, embalada pelos 50 anos da franquia, a Editora LeYa lançou uma nova versão, ampliada e em novo formato: Jornada nas Estrelas: O Guia da Saga, com edição de Silvio Alexandre. Nogueira é jornalista, e Alexandria é tradutora de ficção científica e roteirista.

Essa nova versão é uma obra de fôlego. Com 50 capítulos — um para cada ano de existência da franquia e em ordem cronológica –, o livro deixa pouca coisa de fora. Séries e filmes de cinema são contemplados igualmente. Aqueles capítulos que tratam da série clássica e das séries derivadas (incluindo a série animada da década de 1970) combinam uma discussão de cada temporada e dos detalhes de produção, centralizada na página, e um guia de episódio dispostos nas bordas. É uma solução gráfica engenhosa, que combina uma história da franquia com referências para  fãs, pesquisadores e curiosos. Embora seja em preto e branco, o livro todo é muito bem ilustrado.

De pesquisa impecável, Jornada nas Estrelas: O Guia da Saga, discorre sobre a saga como se seus autores fossem insiders com conhecimentos dos bastidores e dos sentidos e temas centrais de Star Trek. Minuciosos, os autores não deixou de fora informações sobre a franquia no Brasil, algo que outros guias teimam em negligenciar. Nogueira e Alexandria incluem menções à publicação de livros atrelados às diversas séries, fã-clubes e fanzines nacionais, além da vinda de atores da série clássica a convenções no Brasil!

Mais que um guia, é uma enciclopédia sobre Star Trek, em um volume só e com ótima apresentação. É um prazer reconhecer que o jornalismo cultural brasileiro é capaz de produzir um livro como este. Mérito de Salvador Nogueira e Susana Alexandria, que, além de profissionais do texto, são claramente fãs desse universo gerado pelo pioneirismo de Gene Roddenberry.

Preview, a revista brasileira de cinema, deu destaque ao lançamento do terceiro filme do reboot, Star Trek: Sem Fronteiras
Preview, a revista brasileira de cinema, deu destaque ao lançamento do terceiro filme do reboot da série clássica, Star Trek: Sem Fronteiras.

 

Preview também publicou neste ano uma revista pôster de Star Trek: Sem Fronteiras
Preview também publicou neste ano uma revista-pôster de Star Trek: Sem Fronteiras.
Nos anos 1990, a Editora Aleph especializou-se em romances atrelados a Star Trek. No aniversário de 50 anos da franquia, trouxe de volta um dos romances favoritos dos trekkers, com nova capa e tradução.
Nos anos 1990, a Editora Aleph especializou-se em romances atrelados a Star Trek. No aniversário de 50 anos da franquia, trouxe de volta um dos romances favoritos dos trekkers, com nova capa e tradução.
Star Tranko é uma divertidíssima paródia feita na Itália, para a Disney e lançada aqui pela Abril.
Star Tranko é uma divertida paródia feita na Itália para a Disney, e lançada aqui pela Abril.

Star Trek: Nos Domínios da Escuridão, de Mike Johnson, Erfan Fajar e Claudia Balboni. Capa de Tim Bradstreet. São Paulo: Mythos Editora, 2016, 210 páginas. Tradução de Érico de Assis. ISBN: 

Jornada nas Estrelas: Cidade à Beira da Eternidade (Star Trek: The City on the Edge of Forever), de Harlan Ellison, Scott & David Tipton, e J. K. Woodward. Capa de Paul Shipper. São Paulo: Mythos Editora, 2016, 138 páginas. Tradução de Érico Assis. ISBN: 978-85-7867-226-3

Jornada nas Estrelas: O Guia da Saga, de Salvador Nogueira & Susana Alexandria. Capa de Caio Monteiro. São Paulo: Editora LeYa, 2016, 320 páginas. ISBN: 978-85-441-0431-6

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