Quando Brad Pitt visita a Zumbilândia

Acreditar em zumbis exige uma suspensão de descrença diferente da maioria dos outros filmes. É mais fácil acreditar em vida extraterrestre do que em zumbis. Isso acontece por que corpos sem vida não se mechem. Quanto menos correm, pulam e mordem. É preciso um sistema nervoso e circulatório para operar isso, coisa que eles não têm. Como eu sei disso? Por que no último ano do colegial eu tentei adaptar Frankenstein pro teatro da escola e não…deu…certo.

É por isso que fazer filmes sérios de zumbis é um negócio complicado, e portanto, relegado à categoria de filmes B, ou Cult, como os do cineasta Goerge A. Romero, que se tornou icônico e possui uma legião de fãs pelo mundo desde a década de 60. Recentemente, no entanto, o gênero do morto-vivo foi resgatado pela cultura pop e virou séries de TV como The Walking Dead e paródias, como Zumbilândia e Todo Mundo Quase Morto, onde ele se mostrou mais a vontade.

O que se passou pela cabeça de Brad Pitt quando ele decidiu adaptar o romance de Max Brooks, Guerra Mundial Z, é impossível saber. Provavelmente ganhar dinheiro, o que, aliás, ele está conseguindo. O filme já fez 130 milhões de dólares desde sua estreia, e, com os ganhos ao redor do mundo, será capaz de pagar seu astronômico custo de 190 milhões de dólares.

Bem, deixada a lógica do lado de fora da porta do cinema, e levado em conta que a obra passou pela mão de seis roteiristas, resultou numa briga épica entre o astro/produtor, Brad Pitt e o diretor Marc Foster (de Em Busca da Terra do Nunca e Quantum of Solace), é de se admirar que o filme não tenha se tornado o fiasco que estava predestinado a ser.

Gerry (Pitt) é um ex-agente das Nações Unidas, que se aposentou e agora vive uma vida confortável com sua família na Filadélfia, quando um surto de um vírus que transforma as pessoas em zumbis começa a se alastrar numa velocidade mais rápida do que o necessário para dizer “zumbi”. Estremeço só de pensar o tamanho do caos que seria se algo como isso realmente acontecesse. Em uma sequência angustiante nas ruas da cidade do protagonista, pessoas são transformadas em segundos, causando violência e pandemônio, com carros capotando e coisas explodindo. Parece até a Avenida Paulista.

Well. Gerry consegue levar sua esposa e suas duas filhas para um abrigo temporário em um porta-aviões no meio do oceano, quando seu amigo dos tempos de salvador da pátria, Thierry, o chama para tentar resolver a situação. Ninguém explica por que sua experiência na Chechênia e nos Cafundós do Judas tornam Gerry O CARA para se recorrer no caso de um apocalipse zumbi, mas lá vai ele, até a Coréia do Sul – onde aparentemente tudo começou – com um estudante em virologia de Harvard para tentar resolver a encrenca.

Well… Não dá certo [spoiler] e lá vai Gerry para Israel onde eles aparentemente estão ganhando a guerra. Enfim.Onde Gerry vai, ele causa destruição em massa e a perda de vidas humanas é alarmante. Mas não são vidas humanas propriamente, pois os zumbis são apenas bonecos gerados por computador que se amontoam um sobre os outros e escalam edifícios inteiros. Bilhões de pessoas morrem no decorrer da história, mas que se dane, pois o importante é salvar o protagonista.

Tudo bem. Mas as ação muita vezes deriva de atitudes estúpidas dos personagens e a vida humana realmente não possui significado. Rostos de atores conhecidos passam quase despercebidos por sequências bem construídas, mas curtas e pouco desenvolvidas. Os diálogos não são grande coisa também, e a família de Gerry está em cena mais para atrapalhar do que para qualquer outra coisa, carecendo de maior aprofundamento.

Ainda assim, o filme tem suas qualidades. Um ritmo impecável do começo ao fim guia o espectador pela ação, que opta pela tensão acima da violência e do nojo, o que é uma sábia escolha. Ao invés de um festival de gore, temos sequências eletrizantes, especialmente quando Gerry e seus colegas devem entrar em um laboratório infestado de zumbis para descobrir algo que pode ou não ser uma cura. É também um momento atípico do filme, que bebe das fontes do suspense, mais do que da ação, numa espécie de anticlímax.

Se tivesse sido mais fielmente adaptado do romance de Max Brooks, que faz um relato oral dos sobreviventes de uma pandemia zumbi que teria se alastrado na China primeiro, o filme se assemelharia em termos de estrutura com algo mais parecido com Contágio, do diretor Steven Soderbergh. Seria um filme mais engajante, mas menos rentável e apelativo. Tudo bem. Pois, colocando tudo o que se passou em perspectiva, Guerra Mundial Z até que não decepciona.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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