Interestelar – Além das estrelas

Emoções conflitantes. Sensações estranhas. Sentimentos misturados. Isso por que Interestelar (Interstellar, EUA, 2014), é, possivelmente, a melhor e pior ficção-científica do ano. De certa maneira, algo positivo. E, indubitavelmente, um filme que precisa ser visto no cinema, o mais rápido possível.

Christopher Nolan concluiu a trilogia do Cavaleiro das Trevas em 2012, se forma um tanto desapontadora. Depois de reinventar e levar para o lado negro da força o personagem das histórias em quadrinhos, Nolan decidiu se aventurar nas profundezas do espaço desconhecido em mais uma colaboração com seu irmão, Jonathan Nolan, com quem ele compartilha o roteiro.

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Em um futuro meio mal explicado, em uma época nem muito distante nem tão próxima de quando vivemos, o mundo enfrenta uma escassez brutal de alimentos. Pragas infectam as colheitas ano após ano e a humanidade enfrenta uma real ameaça de extinção. Nesta elegia preservacionista, é de se espantar que no mundo criado pelos irmãos Nolan, os cientistas, engenheiros e astrofísicos tenham sido substituídos por fazendeiros. Em que os esforços da humanidade foram concentrados não em criar novas tecnologias capazes de suprir as necessidades das populações, em criar maneiras de evitar que as pragas destruíssem as colheitas, em criar novas formas de desenvolvimento de energia sustentável.

Cooper (Matthew McConaughey) é um ex-piloto de testes da Nasa que se tornou fazendeiro depois que a filosofia mundial mudou e as sociedades começaram a entrar em colapso. Ele vive com seus dois filhos, Tom e Murph, de 15 e 10 anos, respectivamente. O avô das crianças, Donald (John Lightgow) também faz sua presença constante no primeiro terço do filme.

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Na fazenda onde a família vive, um fantasma assombra a pequena Murph. Durante uma tempestade de areia, Cooper descobre que esse suposto fantasma deixou para eles uma espécie de código que os leva a uma antiga instalação militar. Parece estranho, mas fará sentido mais tarde. Essa instalação, é uma das últimas da Nasa, e Cooper descobre que um grupo de cientistas liderados pelo Professor Brand (Michael Caine) descobriram um buraco de minhoca orbitando saturno e enviaram sondas através dele, que chegaram a uma outra galáxia.

O plano é: ou encontrar novos mundos habitáveis para estabelecer uma colônia humana,ou resolver uma fórmula que pode permitir a manipulação da gravidade e, portanto, permitir a construção de espaçonaves grandes o suficiente para abrigarem toda  a população humana. Mesmo ambas as ideias sendo altamente implausíveis, Cooper opta por abandonar seus filhos, sem saber quando ou se um dia ele voltará para casa, e partir numa missão para descobrir o que aconteceu com as três naves que foram enviadas antes dele.

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Utilizando-se de uma técnica que foi apresentada em A Origem (Inception, EUA, 2010), Nolan manipula e distorce o tempo ao seu bel prazer. Quando a equipe composta por Cooper, Brand (Anne Hathaway), Doyle (Wes Bentley) e Romily (David Gyasi) decidem pousar em um dos três planetas ao seu alcance, todos orbitando um buraco negro chamado Gargantua, eles são confrontados com a terrível realidade de que cada hora que se passar naquele mundo, equivalerão a sete anos na Terra. Isso acontece devido às grandes forças gravitacionais exercidas pelo buraco negro (que criam cenas maravilhosamente bem construídas, mas que parecem não afetar fisicamente os personagens do filme), que distorcem o tempo.

Obviamente, quando Cooper chega no dito planeta, ele só encontra problemas e, consequentemente, acaba passando mais tempo lá, do que devia. Quando ele volta para a espaçonave, descobre que nela e na Terra, passaram-se 23 anos. A cena em que ele recebe as transmissões de seus filhos, que cresceram sem ele, e que aceitaram a ideia de que ele nunca irá voltar para casa é emocionante e assustadora. Fruto de um McConaughey ressurgido das cinzas que faz toda a jornada emocional de seu personagem sem dizer uma palavra.

O engajamento emocional com Interestelar, no entanto, acaba por aí. Muitas coisas acontecem em seguida, e muitas das situações são exploradas à exaustão, justificando os 167 minutos do filme. A narrativa pula de Cooper para Murph, agora crescida e interpretada por Jessica Chastain, que busca resolver a equação gravitacional junto com o Dr. Brand (um Michael Caine que certamente não parece ter envelhecido 23 anos). As cenas na Terra são mais desinteressantes do que as cenas que se passam no espaço, embora algumas revelações criem um suspense instigante.

O maior problema de Interestelar é que ele é inconstante. Sequências absolutamente espetaculares são sucedidas de interlúdios entendiantes. Os diálogos são surpreendentemente ruins: as imagens carregam a poesia dos filmes e não as palavras. A duração do filme é excessiva o que torna o longa cansativo (mas isso por quê ele não consegue ser engajante o tempo todo). Valor de produção, uma extraordinária fotografia do sueco Hoyte Van Hoytema e uma trilha sonora linda composta por Hans Zimmer compensam até certo ponto um roteiro que deixa mais furos que O Cavaleiro das Trevas. 

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Nolan buscou uma antítese emocional ao frio e estéril 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968) de Stanley Kubrick, mas deveria ter dosado melhor o melodrama. Às vezes o filme é lacrimoso e parece uma canção country ruim (“meu pai me deixou, meu mundo acabou. Meu trator quebrou e meu avô morreu”). Os protagonistas também, nem sempre tomam as decisões mais inteligentes, o que movimenta a trama pra seus estágios seguintes o que é um erro crucial: nunca uma narrativa deve acontecer por que os personagens são burros. E em vários momentos, a narrativa só avança em decorrência dos erros dos personagens.

Depois disso tudo, parece que Interestelar é a maior decepção do ano. Não, não é. Ele é longo e presunçoso, sim. No entanto, suas cenas espetaculares e sua proposta humanista, conseguem superar a maior parte de suas falhas. Interestelar é uma ficção-científica otimista (e nosso mundo carece de histórias otimistas), com incrível valor de produção e momentos assombrosos que tocam direto na sua alma: embora não seja a obra prima que aspirava ser, Interestelar é um filme que merece ser visto. Não. Precisa ser visto.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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