Saga Volume Um

Fenômeno da crítica, a história em quadrinhos Saga Volume Um recebeu três prêmios Eisner e seis Harvey em 2013, além das categorias de quadrinhos dos Prêmios Hugo e British Fantasy, no mesmo ano, e chega ao leitor brasileiro pela Devir.

Capa da edição brasileira de Saga Volume Um
Capa da edição brasileira de Saga Volume Um

Saudado pela crítica, a HQ Saga Volume Um recebeu três prêmios Eisner e seis Harvey em 2013, além das categorias de quadrinhos dos Prêmios Hugo e British Fantasy, no mesmo ano. O livro saiu em fins de 2014 no Brasil pela Devir, que com a publicação estreita a sua relação com a editora americana de histórias em quadrinhos Image.

Saga trata de uma guerra entre dois povos de uma galáxia qualquer, um habitando um planeta gigante, e o outro a lua desse planeta. Um povo de tez morena e asas de morcego, muito técnico e militarizado (a ponto da sua aristocracia reinante ser composta de robôs com cabeça de monitor de tubos de raios catódicos, vestindo uniformes imperiais europeus); o outro de chifres variados e orelhas bovinas, sua estrutura social com cara mais de Idade Média e com magia no lugar da alta tecnologia.

A história abre com Alana – uma garota da primeira espécie e carcereira em Fenda, um planeta prisão das tropas do planeta Aterro – parindo uma criança que ela gerou com Marko, um homem da outra espécie e prisioneiro de guerra no lugar. Além de tudo isso, o casal expressa um conflito de classes: Alana tem a malícia e a boca suja de uma punk inglesa, enquanto o pacifista Marko parece ser gente fina, filho da aristocracia mágica do seu mundo, Grinalda. Quem narra é a criança recém-nascida, uma menina sem nome (os pais estão em dúvida…) que passa a maior parte da aventura ainda bebê.

Depois de um “momento Tarantino” em que tropas dos dois lados surpreendem o casal e se matam até o último homem, milagrosamente poupando pai, mãe e filha, eles conseguem com o ET que os traiu (um mecânico com a aparência de macaco) um mapa que indica uma posição, numa floresta maldita no planeta Fenda, onde podem conseguir uma nave espacial para tirá-los momentaneamente da encrenca.

Enquanto isso, um assassino profissional chamado O Querer – um humano careca, acompanhado de um gato gigante que funciona como um polígrafo vivo – é contratado para caçá-los, matar o casal e capturar a neném. O contratante, da parte do povo chifrudo de Marko, também aciona uma colega do matador, A Espreita, e isso joga o careca na maior deprê. É que A Espreita é o amor da sua vida, apesar da aparência de uma albina com oito olhos vermelhos e, abaixo do umbigo, o corpo de uma aranha (e apear de usar um celular cor-de-rosa). Para sair da fossa, ele abandona o serviço vai a um planeta que é uma espécie de bordel galáctico.

Enquanto isso, em Fenda, o casal aloprado encontra não só A Espreita do bosque do terror, mas também um grupo de fantasmas de crianças mortas e mutiladas na guerra entre os dois povos. Um desses “danos colaterais”, Izabel, é uma menina sem as pernas e o baixo ventre, e de tripas penduradas, que se torna a babá da filhota de Alana & Marko.

O povo de Alana também está atrás deles, com o Príncipe Robô IV conduzindo a sua própria investigação – que leva ao autor favorito de romances água-com-açúcar de Alana, um alienígena ciclope chamado “D. Oswald Heist” (um trocadilho: “The Oswald Heist”, ou “O Roubo a Mão Armada de Oswald”). O livro favorito da fujona tem na capa cena de um amor interespécie, assim como o de Alana com Marko.

Tá na cara que Saga se pauta por um tipo de humor brincalhão em que o bizarro, o estranho e irracional têm o banal e o banalizado como contraponto: o amor subversivo inspirado por uma love story publicada em livro de bolso na galáxia distante; o rapaz que ficou noivo da sua namoradinha do high-school, mas que a renega ao renegar também aquilo que sua família e sua classe representam – e que teve um cachorro chamado Rumfer que morreu atropelado por um ônibus escolar.

Normalmente, mesmo uma ficção científica do tipo space opera, subgênero ao qual Saga pertence, tenta convencer o leitor de que os eventos narrados são plausíveis. Indo contra essa tendência, o espírito brincalhão de Saga é pós-modernista, concebido para rejeitar as adesões costumeiras do leitor ao realismo. E apresenta um tipo de melodrama ou sentimentalismo, também caracteristicamente pós-modernista, que desafia o leitor a levar a sério certas situações trágicas ou ternas, no meio da brincadeira e do nonsense. Isso acontece, por exemplo, quando O Querer encontra, no planeta-bordel, um cafetão que lhe oferece uma menina humana de seis anos de idade…

Bem traduzido por Marquito Maia e em bela edição capa-dura, Saga é divertido e intrigante, único nas suas estratégias narrativas e artísticas. O traço áspero de Fiona Staples é efetivo e minimalista, mas suas cores digitais claras, suaves e cintilantes lembram as figuras do caderno de uma garota de doze anos, reforçando a sensação de estranhamento que essa HQ oferece. Como este é só o primeiro volume, podemos esperar mais aventuras da família mais estranha da galáxia para o futuro próximo.

Brian K. Vaughan & Fiona Staples. Saga Volume Um (Saga Volume One). São Paulo: Devir Livraria, novembro de 2014, 164 páginas. Capa-dura. Tradução de Marquito Maia. ISBN: 978-85-7532-584-1. Mais em http://devir.com.br/hqs/saga.php.

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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