Creed: Rocky Balboa passa bastão a novo herói dos ringues

Hollywood e o público de cinema costumam recompensar franquias duradouras, até porque algumas passam a fazer parte da experiência em comum de gerações. É o caso da franquia Rocky, criada pelo ator, diretor e roteirista Sylvester Stallone em 1976 com Rocky: Um Lutador (Rocky), escrito por ele e dirigido por John G. Avildsen. Produção mediana estrelada por um ator que até então fizera só umas pontas no cinema e pequenos papéis na televisão, Rocky levou o Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Montagem, além de indicações para Stallone (de ator e roteirista), Talia Shire (atriz), Burgess Meredith e Burt Young (ambos para ator coadjuvante). Marcou época e lançou Stallone como astro.

A duradoura franquia sobre um lutador de boxe medíocre que alcança a glória no ringue foi uma constante na segunda metade da década de 1970 e durante os anos 80, e fez muito para divulgar o esporte. Eu mesmo me tornei um fã de boxe depois de ver Rocky II: A Revanche, em 1979. O impacto foi tanto, que em 2013 Stallone entrou para o Hall da Fama do Boxe, num reconhecimento da presença do seu personagem no mundo desse esporte. (Existe uma categoria que contempla não lutadores, no Hall of Fame.)

Henrique Matteucci, um dos maiores cronistas esportivos brasileiros a se dedicar ao pugilismo, disse em seu livro clássico Eu já Beijei a Lona (1957) que o boxe é “a nobre arte” por ser um espaço de expressão das classes menos favorecidas. Os primeiros dois filmes da franquia criada por Stallone mergulham nesse ponto de vista, indo para além da pieguice do underdog que surpreende aqueles que o supõe desde o início como carta fora do baralho. Rocky Balboa (Stallone) é um lutador ítalo-americano da Filadélfia, sem muito talento mas de pegada forte e canhoto — o que complica a vida dos pugilistas destros. Quando o adversário do campeão dos pesos-pesados, Apollo Creed (Carl Weathers), se machuca a poucas semanas de uma luta multimilionária, Rocky é procurado para substituí-lo — jogada de marketing num país que se acredita a “terra da oportunidade”.

É o “sonho americano”, mas certamente o primeiro filme o subverte em certa medida. Rocky, mesmo antes da fama, é o protetor dos vira-latas e fracassados, recolhe bêbados da sarjeta em dias frios, dá conselhos a garotas em má companhia, e hesita em quebrar ossos fora do ringue (mesmo trabalhando como cobrador do agiota do bairro). Em torno dele, os fracassados se reúnem menos para buscar o sonho americano, e mais para afirmar aos vitoriosos que ainda estão aqui. Como Matteucci intuiu, para afirmar que mesmo os aqueles nos estratos mais baixos da sociedade se enxergam como protagonistas de suas vidas.

A série descambou para a autoajuda em Rocky III: O Desafio Supremo (1982) e para a propaganda política em Rocky IV (1985), filmado depois que a outra série famosa de Stallone, Rambo, ganhou elogios do presidente republicano dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e no qual Rocky Balboa é uma espécie de super-herói enfrentando o supervilão soviético Ivan Drago (Dolph Lundgren, cuja carreira no cinema foi lançada com esse filme). Com Rocky V (1990), Stallone retorna a direção (ele vinha dirigindo a franquia a partir do segundo filme) a Avildsen e ensaia se afastar dessas baboseiras e retornar às raízes do personagem, com uma trama que oferece críticas às malandragens típicas desse esporte.

Mas é com Rocky Balboa (2006) que o personagem de fato se reencontra. Stallone, que volta à direção, abre mão de todas as sequências para se remeter diretamente ao primeiro filme. O agora enviuvado Rocky contempla voltar ao boxe profissional numa idade improvável (Stallone se inspirou na conquista do título dos pesados por George Foreman, quando este tinha 45 anos), enquanto volta a juntar um grupo de fracassados em torno de si. É uma bela homenagem ao legado de um personagem caro a milhões de fãs no mundo todo.

O que mais poderia ser feito com o herói? O jovem diretor afro-americano Ryan Coogler abordou Stallone com um ângulo novo — Apollo Creed, seu maior adversário e amigo no mundo do boxe, deixou um filho bastardo, Adonis Johnson (Michael B. Jordan), resgatado de um orfanato pela viúva de Apollo e criado em berço de ouro. Mas Adonis tem inquietações internas e secretamente luta como profissional no México (sem segundos, o que é provavelmente impossível no esporte). À revelia da mãe (Phylicia Rashad), larga um emprego de executivo e vai à Filadélfia pegar no pé de Rocky — a quem chama de “tio” — até que ele aceite treiná-lo.

A partir daí a história fica mais parecida com a de Rocky: Um Lutador: “Pretty” Ricky Conlan (o lutador profissional Tony Bellew), um inglês campeão dos meio-pesados, vai passar uma temporada na cadeia por posse de armas, depois de quebrar o queixo do seu adversário fora dos ringues, e precisa de uma luta que chame a atenção e arrecade muito, para deixar sua família e equipe bem enquanto estiver na penitenciária. Seu manager se volta para Adonis Johnson, cujo parentesco com Apollo Creed vem à tona depois da sua primeira luta na Filadélfia. O sobrenome famoso e a possibilidade de ser uma luta fácil para o campeão levam ao convite.

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No meio do caminho, Adonis conhece a bela cantora Bianca (Tessa Thompson), que sofre de uma degeneração auditiva severa, e que se torna seu interesse romântico –, conhece a realidade das ruas da Filadélfia, e descobre que Rocky está sofrendo de câncer. Aqui, sem ênfase excessiva numa psicologia de auto-ajuda, o filme mostra a luta como metáfora para o enfrentamento das encrencas da vida.

O diretor Ryan Coogler tem uma direção segura, com uma excepcional coreografia de lutas e um olhar terno para a vida pequena dos grandes centros urbanos. Seu filme depende dos eventos de Rocky III e IV, mas ele contorna essas produções medíocres com facilidade, ao caracterizar o seu herói. Mas é na apresentação segura e sutil da psicologia dos personagens que ele parece exceder. Sintonizado com essa sutileza, Stallone livrou-se dos maneirismos mais salientes de Rocky (a antiga trilha original de Bill Conti foi igualmente usada com parcimônia e em pontos muito bem selecionados), dando espaço a uma paleta mais ampla de nuances oferecidos pelo Adonis de Jordan, ator em ascensão que se destacou na série Friday Nights Lights, sobre futebol americano colegial.

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Adonis Johnson expressa sua inexperiência, ansiedade quanto à decisão arriscada tomada, carinho pelos outros mas também a raiva e insegurança resultantes de sua infância de órfão. Jordan mata tudo no peito e responde com grande habilidade, seduzindo o espectador com uma inocência e fragilidade de menino. Em torno dele, orbitam situações muito intrigantes e significativas — como quando ele faz “sombra” diante de um telão com uma das lutas de Apollo contra Rocky, e o espectador vê que modela o seu estilo não a partir do pai, mas sim do seu adversário. Ainda assim, porque não conhecemos o que realmente está pegando na sua cabeça, há uma sombra de superficialidade nessa coisa toda do bastardo que não conheceu o pai.

Coogler e o co-roteirista Aaron Covington espantam essa sombra num lance genial, com uma explicação numa única frase lançada no momento absolutamente certo. Depois disso, tudo parece estar no seu lugar e tudo o que vimos antes se reorganiza com clareza e com uma explosão emocional que por si só faz valer o filme.

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A escritora Joyce Carol Oates (hoje a maior comentarista dos azares da vida americana, depois da morte de Norman Mailler) escreveu no seu livro On Boxing (1987) que “cada luta de boxe é uma história — um drama sem palavras único e altamente condensado. Mesmo quando nada de sensacional acontece: então o drama é ‘meramente’ psicológico. Os boxeadores estão lá para estabelecer uma experiência absoluta, um relato público dos limites mais extremos dos seus seres; eles saberão, como poucos de nós podem saber sobre nós mesmos, qual força física e psíquica eles possuem … Entrar num ringue quase nu e arriscar a vida é tornar o público numa espécie de voyeur: tão íntimo é o boxe … Os boxeadores trarão para a luta tudo o que são, e tudo será exposto — incluindo segredos sobre si mesmos que eles não conseguem entender completamente.”

O ringue não é um lugar de impostura e de prevaricações, e Ryan Coogler realizou em Creed: Nascido para Lutar um filme que nos lembra que os lutadores entram nele com tudo o que são e tudo o que desejam ser. E o jovem diretor também demonstrou o que ele quer realizar com este excelente início de uma nova franquia.

–Roberto Causo

Creed: Nascido para Lutar (Creed). Dirigido e escrito (com Aaron Covington) por Ryan Coogler. EUA, 133 minutos. New Line Cinema e Chartoff-Winkler Productions. Com  Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Andre Ward, Tony Bellew, Ritchie Coster, Graham McTavish.

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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