Rogue One: Ficando mais Adulto

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Rogue One mostra o paradoxo de ser um Star Wars mais adulto

O novo blockbuster do verão, Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, EUA/ING, 2016) é um pouco diferente do que estamos acostumados a ver dos estúdios Disney. Enquanto o longa-metragem O Despertar da Força, de J.J. Abrams, apesar de todos os seus defeitos (e foram muitos) resgatou a magia da franquia Star Wars que havia sido perdida com a trilogia mais recente de George Lucas, Rogue One, do cineasta Gareth Edwards, toma um caminho diferente.

O filme é mais sombrio, mais violento e tem uma pegada simplesmente diferente dos demais filmes da série, com exceção, talvez, do episódio III, A Vingança dos Sith (2005). Ele narra uma história paralela dentro do universo Star Wars, que acontece entre os episódios III — mencionado anteriormente — e IV, Uma Nova Esperança, de 1977, que deu a luz toda a franquia. Nele, um grupo de rebeldes lideradas por Jyn Erso (Felicity Jones) realizam uma missão ousada para capturar os planos da Estrela da Morte, a super-arma criada pelo Império para dar fim à Aliança Rebelde.

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Erso é filha de um fazendeiro chamado Galen Erso (Mads Mikkelsen) que, na verdade, é um super-engenheiro que costumava trabalhar para o Império, mas fugiu, se escondendo em um planeta distante onde tentou, sem sucesso, levar uma vida normal. Quando criança, Jyn viu seu pai ser sequestrado pelo diretor Orson Krennic (Ben Mendelhson), que usa seus talentos para construir uma máquina tão poderosa que é capaz de destruir planetas inteiros. Jyn, por sua vez, é deixada à própria sorte. Acaba nas mãos de um militante (interpretado por Forrest Whitaker) tão radical, que ele se separa até mesmo dos Rebeldes. Mas eis que ela é convocada justamente para encontrar seu pai e ajudar a por um fim nos planos do Império.

Rogue One é o primeiro de uma série de filmes spin-off que complementam a narrativa principal da saga Star Wars, ou, como eu gosto de chamar, “uma maneira inteligente mas não muito sutil dos estúdios Disney ganharem mais dinheiro”. A ideia era de que este filme, à princípio, tivesse um caráter mais autoral, e funcionou, até certo ponto. Gareth Edwards, cineasta inglês de relativa inexperiência, havia produzido o filme indie, Monstros em 2010, e então o remake de Godzilla em 2014, mas o resultado não foi dos melhores. Rogue One era sua chance de se provar.

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Logo de cara podemos ver suas intenções presentes. Rogue One é, em essência, um filme de guerra. Ele tem um clima mais a ver com O Resgate do Soldado Ryan Falcão Negro em Perigo, do que com as aventuras de Star Wars: uma Nova Esperança Star Wars: o Despertar da Força. Isso ficou evidente já nos trailers e foi algo interessante de se ver: um filme Star Wars genuinamente mais sombrio. E de fato, ele conseguiu ser exatamente isso. Rogue One é mais violento, mais intenso e mais triste que os outros. Agora, isso significa que ele é um filme melhor que os demais? Talvez, mas não necessariamente.

Assim como os demais filmes da franquia Star Wars e a maioria dos filmes do estúdio Disney em geral, Rogue One segue mais ou menos o mesmo padrão de técnica narrativa. Temos uma personagem principal que é introduzida logo no começo como uma vítima de um trauma, que depois acaba caindo sem querer no meio de uma causa na qual ela não acredita e que lá pelas tantas se torna uma líder dentro dessa causa por que a trama precisa que ela faça isso. Portanto, o maior problema de Rogue One está na construção das motivações de sua protagonista e no fato de que muita coisa acontece em muito pouco tempo de filme.

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Suponho que isso era de se esperar: um filme com uma preocupação maior com o desenvolvimento de personagens seria um filme mais longo e com um ritmo cadenciado que não agradaria tanto aos grandes públicos. Mas há um paradoxo complicado em Rogue One: enquanto ele tenta fugir ao máximo das implicações políticas de sua narrativa (e assim não ficar tão “chato”, talvez), seu clima mais sombrio e sua violência mais explícita talvez afugentem as crianças mais novas que compõem uma grande parcela do público da série.

Dito tudo isso, devo acrescentar que Rogue One é, de fato, muito melhor do que o esperado. Após grandes porções do filme terem sido refilmadas, surgiu um grande temor entre os fãs da série que o resultado fosse um filme atropelado e incoerente. Não é o caso. O roteiro dos veteranos Chris Weitz e Tony Gilroy é claramente um trabalho de remendo, mas o filme é repleto de bons momentos, ótimas sequências de ação e um gancho inteligente para o episódio IV, Uma Nova Esperança. Os diálogos também são melhores do que a maioria dos filmes da franquia e Rogue One se serve muito bem de seu elenco multifacetado (que inclui Diego Luna, Donnie Yen e Wen Jiang) e de uma protagonista sólida.

Este Star Wars tem algumas das mais belas imagens da franquia, e diálogos também

Dizer que Rogue One foi pensado de uma forma visual, seria uma subavaliação. Este Star Wars tem algumas das melhores imagens da história da franquia. E são imagens que não ficam largadas no meio do filme, ou que são facilmente descartadas como em tantos outros filmes da série — em especial O Despertar da Força — são imagens que cumprem uma função dentro do filme e que marcam o expectador, ficando com ele muito tempo depois que ele saiu do cinema.

Além de suas belas imagens, desde O Império Contra-Ataca (1980), um longa-metragem da série Star Wars não tinha diálogos tão bons. E isso é um sopro de ar-fresco, considerando-se que esta não é uma das marcas registradas da franquia. Enquanto a trilogia de George Lucas lançada entre 1999 e 2005, e O Despertar da Força, de J.J. Abrams tinham diálogos atrozes ou simplesmente esquecíveis, os personagens principais de Rogue One se expressam com um pouco mais de eloquência: a fala deles não é circulada por clichês, mas é carregada de humor e de ironia (uma conversa particular entre Darth Vader e o antagonista Orson Krennic se destaca).

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Há algumas qualidades no texto deste novo filme. Porém, por que os diálogos são melhores em Rogue One do que no resto da franquia? Bom, certamente eles foram cortesia do roteirista Tony Gilroy, e seu envolvimento neste filme foi mais importante do que pensamos à princípio.

Rogue One mostra como cineastas veteranos ainda são importantes

Um fenômeno interessante tem ocorrido na produção dos grandes blockbusters contemporâneos, principalmente do estúdio Disney, que é o abandono dos diretores consagrados e veteranos. Vejamos. Na Marvel, a franquia do Capitão América caiu nas mãos dos irmãos Joe e Anthony Russo que fizeram o grosso de suas carreiras dirigindo sitcoms para a televisão. Joss Whedon, que dirigiu os dois primeiros filmes dos Vingadores, também era mais conhecido por seus trabalhos de televisão Buffy: a Caça-Vampiros e Firefly.

Ao mesmo tempo, Colin Trevorrow, que fará o episódio IX só havia dirigido um filme de baixo orçamento antes de capitanear a sequência de Jurassic ParkJurassic World, de 2015. E Gareth Edwards, que filmou Rogue One, só havia feito o longa Monstros, que custou meio milhão de dólares, antes do remake de Godzilla. O único cineasta, digamos, mais conhecido, que liderou a produção de um dos novos filmes da série Star Wars foi J.J. Abrams, que, antes disso, já havia filmado Missão Impossível, dois remakes de Star Trek, e o longa Super 8.

Sejamos justos, portanto. Esses filmes da Marvel e Jurassic Park quebraram diversos recordes de bilheteria e fazem sucesso estrondoso com os fãs. Porém, o que levou os estúdios a optarem por entregarem projetos tão complexos e caros nas mãos de cineastas tão jovens e com tão pouca experiência?

De acordo com o site Vulture, isso se dá para que os estúdios adquiriam um maior controle criativo dos filmes produzidos. Quando você contrata um diretor como Steven Spielberg ou Christopher Nolan, você contrata um cineasta com uma distinta assinatura profissional. Assim, quando você vai ver um filme deles, você vai ver um filme do Spielberg ou do Nolan, e não um filme da Marvel.

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Portanto, a tática usada pela Disney faz sentido e tem tido razoável sucesso até agora. Porém, de acordo com diversas reportagens que vem correndo desde o meio do ano, incluindo a do Hollywood Reporter, as coisas não andaram tão bem assim em Rogue One. Aparentemente os executivos do estúdio ficaram pouco impressionados com o material apresentado por Gareth Edwards e a presidente da LucasFilm, Kathleen Kennedy, chamou o renomado e experiente roteirista Tony Gilroy (que escreveu os quatro primeiros filmes da franquia Bourne, além de ter recebido indicações ao Oscar de melhor filme e roteiro original por Conduta de Risco) para dar uma mão ao diretor.

O que começou como uma consultoria que custava 200 mil dólares por semana, terminou com um envolvimento muito maior por parte de Gilroy que, aparentemente, ganhou 5 milhões de dólares por seu trabalho no filme. Entre as mudanças, pelo visto, estão o final e vários outros detalhes. Nunca saberemos ao certo a extensão do trabalho de Gilroy, mas seu envolvimento denota uma falta de capacidade do diretor Gareth Edwards de dar conta de um projeto tão grande e com exigências tão altas como um filme da série Star Wars.

Tony Gilroy já era um diretor com uma certa experiência (ele havia dirigido três filmes, dois deles muito bons) e com uma carreira extensa de mais de 20 anos como roteirista. Entre suas marcas registradas estão os diálogos afiados e uma capacidade incomum de unir pontos de narrativas aparentemente incomunicáveis (ou seja, criar ganchos onde a gente acha que não dá). Essas características estão amplamente visíveis em Rogue One e estão entre suas melhores qualidades. O que significa que o envolvimento de Girloy pareceu realmente ajudar o filme. Alguns acreditam até que ele assumiu um papel de co-diretor no longa. Seja lá o que foi, deu certo.

Por fim, os grandes blockbusters da Disney se provaram um terreno fértil para jovens diretores que querem começar uma carreira dirigindo projetos de alta visibilidade. Porém, em Rogue One, no fim, os produtores acabaram optando por depositar sua fé nas mãos de alguém com mais experiência. Parece que foi a decisão correta.

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