Roteiro de Lucas para Star Wars chega ao Brasil como HQ

Já deu para notar que, em termos de histórias em quadrinhos, a nova associação entre a Lucasfilm Ltda. e Disney resultou em uma série de novos produtos nas bancas e livrarias brasileiras, dentro da franquia Star Wars. Especialmente pela Panini, que vem publicando a revista mensal Star Wars Legends, mas que também tem lançado livros como este Star Wars: A Guerra nas Estrelas Volume 1 e Volume 2, ainda nas bancas e lojas especializadas.

O artigo “A” diz muito, pois a HQ se propõe a ser uma adaptação do primeiro esboço do roteiro escrito pelo diretor George Lucas, do que seria o filme Guerra nas Estrelas – mais tarde rebatizado como Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança –, de 1977, pontapé inicial da saga que mudou a cara do cinema e revitalizou a space opera também na literatura e nos quadrinhos. Lucas havia chamado o filme inicialmente de The Star Wars.

Os responsáveis pela adaptação para os quadrinhos são o roteirista J. W. Rinzler e o desenhista Mike Mayhew – com belíssimas ilustrações de capa assinadas por Nick Runge. Tenho uma edição americana de 2014 pela Dark Horse, e fica claro que a Panini dividiu a adaptação em duas partes. Nos States, ela foi originalmente produzida como uma minissérie em oito episódios, lançados entre setembro de 2013 e maio de 2014.

Logo se nota é que esta versão do roteiro resultaria em um filme consideravelmente mais longo e caro, com um número enorme de situações envolvendo a resistência do planeta Aquilae a uma ação militar do Império. A narrativa, porém, começa com o “jedi-bandu” Kane Starkiller e seus filhos sendo atacados por um sith na lua de Utapau. O que resulta em Kane perdendo o seu filho caçula Deak. A perda o faz retornar a Aquilae, para deixar o primogênito Annikin a serviço do General Luke Skywalker, um outro jedi de meia-idade.

Capa: Nick Runge
Capa: Nick Runge

Nessa versão do universo criado por Lucas, os cavalheiros jedis estão muito mais dentro da ação, com Skywalker comandando a resistência de Aquilae à invasão do império. O general envia Annikin para garantir a segurança da princesa Leia, parte da família real do planeta. O rapaz encontra resistência da garota, mais adolescente e sexy do que a Leia de Carrie Fisher. Enquanto isso, Skywalker comanda a interceptação de uma Estrela da Morte rudimentar, em furiosas batalhas espaciais. Protótipos de C3P0 e R2D2 (que neste universo, se comunica de forma inteligível) aparecem como parte do equipamento da gigantesca base espacial esférica. Darth Vader também está à bordo, mas ele é um cara grandalhão e de ombros largos, que não usa máscara mas tem cicatrizes no rosto e no couro cabeludo.

Na superfície do planeta, os dois robôs, que fugiram em um vaso de escape, unem-se a Annikin e Leia. Todos se reúnem com a mãe dela, a rainha Breha, que ordena que Skywalker e os outros levem a princesa a outro sistema estelar, para ficar a salvo do império. Na fuga, há escaramuças com colaboracionista do império e duelos de sabre de luz com stormtroopers – também equipados com a arma que no filme de 1977 é privativa dos jedis. A cena da cantina de Mos Eisley – transformada na cidade de Gordon (um aceno ao Flash Gordon de Alex Raymond) – também faz parte do cenário da fuga dos heróis pelos desertos de Aquilae. Assim como o encontro com Han Solo – que aparece como um alienígena escamoso de pele verde, parecido com o Mostro do Pântano dos quadrinhos da Marvel. A inclusão de dois gêmeos, irmãos menores de Leia, no enredo e na fuga sugere que Lucas já acalentava um apelo dirigido ao público infantil.

Na segunda parte, Leia pega em armas e surge um lorde sith como antagonista central — um sujeito magro e moreno, de máscara cibernética cobrindo boca e nariz. A nave de Solo tem as linhas do Blockade Runner que aparece na abertura de Star Wars sendo alvejado por um destróier imperial. Há várias lutas nos corredores da nave e no espaço, até que o bando chegue a um planeta habitado por wookies em guerra tribal entre si, e onde Chewbacca é apresentado. O enredo nesse ponto envolve fazer os wookies lutarem contra as tropas imperiais. O cenário do planeta lembra a sequência de Flash Gordon nas árvores gigantes de Mongo…

Capa: Nick Runge
Capa: Nick Runge

Parte do interesse dessa adaptação está em dar pistas de como Lucas canibalizou esse primeiro tratamento bruto do roteiro na versão aparada e enxuta que vimos na telona. Comparada a esta versão, a do filme soa precisa e minimalista, enquanto o primeiro roteiro oferece ações mais confusas e clichês mais evidentes. Num outro plano, o interesse também está no modo como naves, paisagens e estruturas evoluíram – embora pareça claro que Mayhew se esforçou não só em fazer a ponte entre os primeiros estudos de pré-produção, mas também entre aquilo que foi feito em 1977 com o filme que lançou a franquia, e o que veríamos décadas depois com os episódios I, II e III.

A edição da Panini tem páginas extras de estudos feitos pelo artista, e que não estão na edição americana que eu tenho. Isso é bom porque a edição brasileira dá algum crédito ao trabalho pioneiro de Ralph McQuarrie e Collin Cantwell.

De qualquer modo, A Guerra nas Estrelas é uma história em quadrinhos primorosa por direito próprio. A arte de alto nível de Mayhew é extremamente valorizada pela cor esmaecida e muito natural de Rain Beredo. Com boa atenção a fisionomias e quadrinhos dinâmicos, Mayhew lida muito bem com todos os elementos visuais necessários para realizar essa curiosa adaptação, com um ar de filme B que não deixa de homenagear uma herança de FC cinematográfica na qual Star Wars se apoia. O leitor deve se deleitar também com as suaves e luminosas ilustrações de capa de Nick Runge, reunidas no final do segundo volume.

Vale observar que o projeto de Lucas passou por várias etapas, e que a versão vista aqui não teria sido a primeira. A revista Sci-Fi Invasion: The Guide to Science Fiction Entertainment Especial de 1997 trouxe artigo de Anthony Duignan-Cabrera com os primeiros desenhos de produção de Ralph McQuarrie realizados em 1974. Neles, Luke Skywalker era uma garota, e Han Solo brandia um sabre de luz.

–Roberto Causo

Star Wars: A Guerra nas Estrelas Volume 1 (The Star Wars). Texto de J. W. Rinzler, arte de Mike Mayhew, cores de Rain Beredo. São Paulo: Panini Comics, 2015, 124 páginas. Brochura. Tradução de Magda Lopes & Paulo França. ISBN: 9-788542-602180-01

Star Wars: A Guerra nas Estrelas Volume 2 (The Star Wars). Texto de J. W. Rinzler, arte de Mike Mayhew, cores de Rain Beredo. São Paulo: Panini Comics, 2015, 114 páginas. Brochura. Tradução de Magda Lopes & Paulo França. ISBN: 9-788542-602197-02

 

Capa: Tsuneo Sanda
Capa: Tsuneo Sanda

A Panini Comics fechou a publicação da trilogia de Star Wars episódios I, II e III em luxuosos álbuns em capa dura, com o lançamento recente de Star Wars Episódio III: A Vingança dos Sith. O texto é de Miles Lane em cima do roteiro de George Lucas. O desenho é do excelente Doug Wheatley – visto no Brasil na sequência “Dark Times” incluída na revista Star Wars Legends, também da Panini. As ilustrações reunidas na seção final do livro e na quarta capa são pinturas assinadas pelo expressivo e vigoroso Dave Doorman, mas a da capa é do mais suave Tsuneo Sanda.

 

 

 

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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