Rua Cloverfield, 10 – o inimigo do homem

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O que O Nevoeiro (The Mist, EUA, 2007), A Bruxa (The VVitch, EUA, 2016) e Rua Cloverfield, 10 (10, Cloverfield Lane, EUA, 2016) tem em comum? Além de serem filmes de considerável tensão, todos eles usam ao seu dispor uma variedade significativa de recursos imaginativos que possuem algumas semelhanças uns com os outros.

2 Em Rua 10 Cloverfield, uma mulher chamada Michelle (Mary Elizabeth Winstead) sofre um acidente de carro e acorda aprisionada a um cano no porão de uma casa. Parece mais um caso de sequestro, mas o raptor da moça, um homem chamado Howard (John Goodman) diz que ele a salvou de um misterioso ataque que pode ter sido nuclear, ou químico, resgatando-a de seu carro destruído e levando-a para sua casa, projetada para ser um abrigo impenetrável. Junto deles está um rapaz chamado Emmett (John Gallagher Jr.) que machucou o braço tentando entrar na casa depois de ter visto clarões que pareciam explosões no horizonte.

A princípio, Michelle acredita que Howard é completamente louco (o que não está necessariamente longe da verdade) até que, em sua primeira tentativa de fuga, ela se depara com uma mulher visivelmente queimada que implora para que ela a deixe entrar. Eis que a suspensão de descrença começa a atuar em potência máxima tanto para o espectador, quanto para a protagonista: algo realmente aconteceu lá fora. Só não sabemos o quê.

3Embora ela e Emmett estejam protegidos dentro da casa, as coisas não estão indo bem para eles. Howard é instável e, às vezes, violento. Ele também esconde um segredo, que, pela graça dos spoilers, eu não vou contar. O fato é que a situação está tão complicada do lado de dentro da casa, quanto do lado de fora. Eis a semelhança de Rua 10 Cloverfield com O Nevoeiro, a história de um grupo de pessoas que fica presa em um supermercado durante uma invasão alienígena. Dentro dele, as pessoas começam a se voltar umas contra as outras e a situação fica tão insustentável, que a melhor alternativa para os protagonistas é fugir e tentar a sorte com os alienígenas do lado de fora.

Algo semelhante acontece com Michelle, que arquiteta um plano com Emmett para fugir da casa e procurar ajuda no mundo exterior, ou o que sobrou dele. E é aí que começam as comparações deste filme com A Bruxa: a maneira como ele constrói a tensão vinda do interior dos personagens que são confrontados com assustadoras, porém, não substanciadas possibilidades. O que aconteceu do lado de fora da casa? Howard é só paranoico ou ele tem um fundo de verdade? E, o quão assustador isso realmente é, comparado ao que está acontecendo dentro da casa?

O diretor estreante Dan Trachtenberg é habilidoso em não deixar a tensão se esvair em nenhum momento, sempre construindo novas e imaginativas situações. O elenco também está impecável, principalmente John Goodman em um dos melhores papéis de sua carreira, sendo divertido e assustador ao mesmo tempo. Mary Elizabeth Winstead também alcança um ponto alto na carreira, interpretando uma mulher que precisa se virar usando a inteligência e os recursos disponíveis para sobreviver às situações nas quais ela se encontra.

4É justo dizer que os roteiristas Josh Campbell, Matthew Stuecken e Damien Chazelle reservam algumas surpresas interessantes para o final, mas a relação entre Rua 10 Cloverfield e seu predecessor, Cloverfield: Monstro (Cloverfield, EUA, 2008) são tão pequenas que podem desapontar espectadores desavisados: Rua 10 Cloverfield, embora um filme melhor do que seu predecessor, não é uma sequência. No máximo, faz parte do mesmo universo.

 A reviravolta no final pode agradar alguns, como desagradar a outros. Eu confesso que fiquei no meio termo. Rua 10 Cloverfield tem uma série de qualidades. Ele é tenso, divertido e imaginativo. Mas algo faz com que o ímpeto caia na sequência final. Tudo bem. Mesmo imperfeito, o filme funciona bem ao explorar os maiores medos e perigos do Homem: o próprio Homem.

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