Star Wars: Os Últimos Jedi – Alçando novos voos

Vamos direto ao ponto. Star Wars: os últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi, ING, 2017) é o filme de Star Wars que eu estou esperando desde 1980: o que significa muito, uma vez que eu nasci em 1992. O que eu quero dizer com isso, é que este é o primeiro filme da franquia mais ousado e mais disposto a correr riscos desde O Império Contra Ataca, de 1980.

Correr riscos não é uma ideia muito comum em Star Wars. Aliás, para alguns fãs mais presos ao passado, tal ideia deve ser considerada um crime. O filme anterior da franquia, O Despertar da Força (2015), por exemplo, não correu nenhum e tampouco teve uma única ideia original. Aliás, dizer que ele é uma cópia quase frame por frame de Uma Nova Esperança não é tão errado assim.

Admito que o longa de J.J. Abrams conseguiu resgatar o senso de humor e de aventura que haviam sido perdidos depois da segunda trilogia dirigida por George Lucas (não seria preciso muito, vamos combinar). Mas ele parou por aí. Os inimigos eram os mesmos, só com outros nomes. As naves eram as mesmas, só que pintadas de preto. Os riscos eram os mesmos, e os resultados semelhantes. Uma única cena (que não vou contar por conta de spoilers) almejou jogar um plot twist na coisa toda, mas ela é anti-climática e pouco surpreendente. Até mesmo os novos temas musicais de John Williams não se destacaram tanto quanto eu, pelo menos, esperava.

A estrategia de não correr risco nenhum pareceu funcionar, e o filme arrecadou um recorde de bilheteria nos Estados Unidos (por um momento, pensei que ele iria superar Titanic e Avatar, mas James Cameron continua sendo o rei). E de certa forma isso é positivo, pois permitiu um novo cineasta (Rian Johnson) chegar com novas ideias e colocá-las em prática.

Como disse Peter Travers, crítico da Rollingstone, Os Últimos Jedi é um vulcão de ideias em plena erupção. Sim, de fato, ele bebe muito da fonte preenchida por O Império Contra Ataca, quase 40 (!) anos atrás. Mas ele não tem medo de brincar com as expectativas dos fãs, nem de introduzir novas situações e conclusões surpreendentes para determinados conflitos. Ou seja, tudo o que o seu predecessor não fez.

Primeira mudança: ao contrário de todos os Star Wars antes dele, Os Últimos Jedi começa exatamente onde O Despertar da Força terminou: Rey (Daisy Ridley) foi encontrar Luke Skywalker (Mark Hamill) nos cafundós do Judas; os remanescentes da Aliança Rebelde estão sendo perseguidos pela Última Ordem e precisam se virar sem o auxílio de Jedi coisa nenhuma; Finn (John Boyega) continua inconsciente após sua luta com Kylo Ren (Adam Driver) e este último tomou um coro desgraçado do Líder Supremo Snoke (Andy Serkins) por ter sido derrotado por uma garota que nunca havia usado um sabre de luz antes. Ele mereceu.

É mais ou menos esse o palco de Star Wars ep. VIII. Rian Johnson, que também escreveu o roteiro, joga várias referências ao Império Contra Ataca como uma luta contra AT and T’s (aqueles camelos gigantes do Império, sabem?), oficiais do império sendo arremessados para longe pelo uso da força e Rey sendo treinada por Luke Skywalker, ou seja, tudo o que vocês viram no trailer.

Assim como Yoda, Luke não quer treinar um novo padawan, e aos poucos, nós vamos descobrindo o porquê. E aí que as revelações e as reviravoltas começam, e elas vão se acumulando até fazerem sua cabeça girar.

Os Últimos Jedi também marca a melhoria do desempenho de vários atores. John Boyega continua carismático como sempre, assim como Oscar Isaac no papel do piloto rebelde (em mais de um sentido), Poe Dameron, meu herói. A falecida Carrie Fisher ganhou mais espaço no papel da general Leia, e mostrou que continuava uma boa atriz como sempre foi. O filme também representa uma melhoria significativa para Ridley, no papel principal. Em O Despertar da Força achei ela pouco convincente, mas nesta sequência ela está mais expressiva e com mais nuances. O que um bom diretor não faz, não é mesmo?

Mas as duas melhores performances ficam a cargo de Adam Driver, como Kylo Ren e Mark Hamill, como Luke Skywalker. Vamos falar do primeiro. O filho de Han Solo continua um bebê chorão insuportável como seu avô, Anakin, mas a grande diferença é que Driver é um ator cem vezes melhor do que Hayden Kristensen. E, muito por conta de seus dotes artísticos auxiliados pelo roteiro de Rian Johnson, Adam Driver vai construindo seu personagem que passa de um bebê chorão para uma ameaça tridimensional.  É uma grande transformação, e as cenas que ele compartilha com Daisy Ridley são as melhores do filme.

Já Mark Hamill rouba o show em Os Últimos Jedi, o que, por sua vez, mostra uma melhoria considerável desde a época que ele interpretou Luke entre os anos 1970 e 1980. E, ao contrário de seu colega, Harrison Ford, Hamill pareceu se integrar por completo ao personagem. Ele está soberbo, triste e divertido ao mesmo tempo, e é a alma desta sequência.

Para não falar que Os Últimos Jedi é um filme perfeito (o que seria uma mentira), ele ainda peca por alguns excessos que são característicos da franquia. Com 2h32min. de duração, ele é o mais longo de todos os Star Wars, e tem um excesso de situações e de personagens. Consequentemente, alguns personagens interessantes são facilmente descartados, principalmente no começo.

Mas ele é um Star Wars para o novo milênio, e consegue resgatar os pontos fortes e temas essenciais para a franquia: a amizade, a aceitação, a pluralidade de indivíduos comuns unidos por uma causa comum e a eterna luta entre o bem e o mal (agora com mais pontos cinzas entre os dois). A questão política ganha um pouco mais de espaço em Os Últimos Jedi, o que pode irritar alguns fãs, mas não é nada muito extenso e tampouco tira o foco dos temas centrais do filme. Aliás, devo dizer que é algo mais do que bem-vindo.

Star Wars: Os Últimos Jedi não é um filme perfeito, mas é um grande filme, e definitivamente o melhor Star Wars desde O Império Contra Ataca. Ele é divertido, movimentado, lindamente bem feito e tem algo de interessante a dizer. E, por último, ao contrário de seu predecessor, ele tem duas coisas muito importantes: um bom roteiro e imaginação.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

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