Star Wars precisa que Poe e Finn fiquem juntos

Star Wars – O Despertar da Força (Star Wars – The Force Awakens, EUA, 2015) pode ser pouquíssimo original, pode ser previsível, pode ser reciclado de todos os outros filmes da franquia (aliás, você confere a resenha completa aqui), mas de todos os sete episódios ele é certamente o mais representativo. A começar por uma heroína mulher (Rey, interpretada por Daisy Ridley) e um herói negro (Finn, interpretado por John Boyenga) que, na verdade, é um stormtrooper. A colunista e editora do Who’s Geek, Gabriela Colicigno, fez um texto sobre a importância da representatividade em Star Wars que você confere aqui.

Eis que surge, recentemente, uma discussão sobre o papel de Poe Dameron na representatividade LGBT em Star Wars. Essa discussão começa a circular pela internet, sob a forma de comentários e artigos (veja aqui e aqui) que questionam se a Disney está, de fato, trilhando o caminho para o seu primeiro herói LGBT. O Who’s Geek, obviamente, não podia ficar de fora. Mas salientamos que este texto contém spoilers, então, se você ainda não viu o filme, corra para o cinema mais próximo de sua casa imediatamente.

Spoilers, dead ahead!

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Poe Dameron, interpretado por Oscar Isaac, é, na minha opinião, o personagem mais apto a liderar a nova trupe de heróis na terceira trilogia da franquia Star Wars. Os outros dois protagonistas, Rey e Finn estão em uma jornada de auto-descobrimento, e ainda não sabem a verdadeira extensão de seus poderes ou o que eles devem fazer para salvar a galáxia do novo vilão, o Líder Supremo Snooke. Aliás, aqui temos um ótimo artigo em inglês tratando sobre essa questão.

Mas o que mais me chamou a atenção sobre Poe, não foi o seu estilo flamboyant, seu jeito moleque e seu uso recorrente de humor, mas sim o fato de que o personagem com que ele mais tem química é Finn. E o personagem com quem Finn mais tem química é ele. E não Rey. Essa é uma afirmação complexa de se fazer, especialmente em tempos como o nosso em que as pessoas ficam facilmente ofendidas com qualquer coisa. Também é uma afirmação que pode insultar os desejos de garotos e garotas que estão mais interessados em ver uma resolução mais tradicional para o que parece ser um triângulo amoroso entre Rey, Finn e Poe.

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Após assistir ao filme pela segunda vez, eu e a Gabriela começamos a prestar mais atenção nos detalhes e os sinais que pode (eu repito, “pode”) haver um interesse romântico entre Poe e Finn começaram a se tornar mais perceptíveis. Desde a primeira cena, quando os ambos fogem juntos de um cruzador espacial da Primeira Ordem (os substitutos do Império destruído em O Retorno de Jedi), é possível perceber que uma conexão se estabelece entre os dois. Eles nãos se veem até a segunda metade do filme, mas a cena do reencontro é fervorosamente romântica e até mesmo emocionante. Os dois sorriem e se abraçam, genuinamente felizes de se verem novamente, e eu achei isso muito bonito de se ver.

No fim, quando Finn é gravemente ferido pelo novo cavaleiro das sombras, Kylo Ren — o novo (wannabe) Darth Vader — no confronto climático, Poe corre juntamente do amigo caído e do departamento médico até a base da aliança rebelde. Eis que a Gabriela sussurra no meu ouvido “olha como ele corre atrás do Finn”. De fato.

É importante salientar que TODOS esses elementos encontrados no decorrer do filme não são diferentes do relacionamento que Han Solo e Luke Skywalker tinham na primeira trilogia. Havia amor ali, com certeza. Um amor de homem para homem, mas que se desenrolava no espectro da amizade sem qualquer conotação romântica. Um amor de irmãos. O mesmo pode estar acontecendo com Poe Dameron e Finn, e eu sinceramente acho que esse é o curso que a Disney pretende seguir nos próximos filmes.

Não quer dizer que eu concorde. Eis por que eu acredito que Star Wars e a Disney precisam que Poe e Finn fiquem juntos, ou que, ao menos, Poe seja um herói gay.

Por que Star Wars precisa que Poe e Finn fiquem juntos?

Star Wars tornou-se, em 1977, a maior franquia do subgênero Space Opera da história do cinema. Tornou-se infinitamente mais popular que Star Trek, embora alguns fãs acreditem que há uma enorme discrepância na qualidade dos dois títulos – algo que não está em discussão aqui. Star Wars também se tornou a franquia que mais abrange um universo expandido no cinema, com centenas de mundos, povos e milhares de nomes e histórias paralelas criadas para complementar a narrativa dos filmes. Vários livros foram lançados recentemente com novas e imaginativas tramas baseadas na franquia original (aliás, se você quiser saber mais sobre os livros, clique aqui e veja o vídeo da Gabriela sobre como ler Star Wars).

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No entanto, em todos os seus sete filmes, Star Wars nunca se preocupou muito em se aprofundar na história, geografia, biologia, topografia e mitologia de seus mais variados personagens, com exceção dos Jedi. Das dezenas de alienígenas que apareceram até agora, pouquíssimos, senão nenhum, teve algum tipo de aprofundamento em sua história. Isso é algo característico da franquia, onde os elementos arquitetônicos e biológicos estão em cena com objetivos mais estéticos do que narrativos. A ausência de personagens femininas em uma galáxia composta por bilhões e bilhões de indivíduos de diversas raças, etnias e culturas, aliada à predominância de heróis brancos é algo preocupante na história da franquia.

Talvez isso fosse aceitável em 1977. Mas os tempos mudaram e Star Wars precisa mudar com eles. George Lucas foi muito conservador em sua nova trilogia — lançada entre 1999 e 2005 — em todos os aspectos políticos, raciais e sexuais. Desde que J.J. Abrams assumiu o projeto, no entanto, parece estar havendo uma mudança nos paradigmas da série, e isso é perceptível pela escolha de protagonistas.

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Ainda assim, sentimos falta de um herói LGBT. E não só em Star Wars, mas em praticamente todas as franquias de sucesso no cinema (vou excluir literatura, que é um tópico para outro texto) recente. Não é incomum que os filmes voltados para o público adolescente apresentem heroínas fortes, autosuficientes (como Katniss Everdeen de Jogos VorazesTris de Divergente e agora Rey de Star Wars), o que é mais que bem vindo, mas elas continuam presas ao estigma do triângulo amoroso envolvendo dois ou mais rapazes e grande parte do interesse do adolescente gira em torno da pergunta “quem vai ficar com quem?”.

Há uma carência de heróis, ou heroínas gays, lésbicas ou transexuais. Isso não é novidade, somente mais um motivo para que a Disney com sua habilidade e alcance para falar com o público infantil, adolescente e adulto invista em um herói gay, ou numa heroína lésbica, ou numa heroína trans. As sociedades estão se tornando mais complexas, as discussões sobre gênero mais predominantes em nossa vida cotidiana, e está se tornando cada vez mais necessário problematizar essas questões.

Por que provavelmente isso não vai acontecer?

Paralelas à essas mudanças sociais, políticas, econômicas e sexuais de âmbito liberal, está ocorrendo em todo o mundo um processo reverso no qual grande parte da sociedade está tendendo a se tornar mais arcaica, mais conservadora e, em alguns casos, mais radical. Alguns casos extremos incluem o Estado Islâmico e o Tea Party. Donald Trump, possível candidato do partido republicano à presidência dos Estados Unidos é outro forte exemplo da força que uma sociedade conservadora possui. Na mesma medida em que essas mudanças estão sendo mais problematizadas, as sociedades ao redor do mundo estão se tornando cada vez mais sensíveis a esse tipo de questionamento.

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Quando o novo pôster do filme apresentou uma garota e um homem negro em papel de destaque, houve uma campanha #boycotstarwars, feita por homens brancos que acreditavam que o filme estava propondo um genocídio cultural de brancos(?!). Isso desconsiderando, obviamente, o fato de que Darth Vader foi dublado por um homem negro, James Earl Jones e que um dos personagens mais queridos da franquia, Lando Calrissian, também era negro, interpretado pelo ator Billy Dee Williams.

Imaginem, portanto, o que mães e pais ao redor do globo irão falar se Poe Dameron realmente for gay e imagine só o que eles dirão se ele e Finn, por um milagre ficarem juntos no final da franquia, ao menos revelarem seus sentimentos um para o outro. Pessoas gritaram em suas redes sociais de como a Disney está tentando influenciar seus filhos a serem homossexuais (como se ser homossexual fosse um problema!). Como a Disney está tentando destruir os bons valores e costumes da sociedade tradicional brasileira, ou norte-americana ou da indo-fucking-china. Que seja.

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Essa é uma complicação que eu acredito que a Disney ainda não está pronta para enfrentar. Oscar Isaac, ator que interpreta Poe Dameron, deu uma entrevista em um canal de TV norte-americano onde ele deu a entender que pode haver, sim, um componente romântico no relacionamento de seu personagem com Finn. Pode ter sido apenas uma tentativa estranha de humor, mas eu espero que seja verdade e que isso seja desenvolvido nos próximos filmes. Eu não tenho vergonha alguma de dizer que eu estou “shippando” descaradamente o casal Poe e Finn. Acho que eles tem química e que eles funcionariam perfeitamente como um casal. Mas, mais do que isso: eu acredito que o mundo precisa que Poe e Finn fiquem juntos.

Mas será que nós estamos realmente prontos para isso?

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

Um comentário em “Star Wars precisa que Poe e Finn fiquem juntos

  • 15/01/2016 em 11:39
    Permalink

    Curti muito seu texto. Com certeza a Disney não vai investir num herói gay, pelo menos não nessa franquia. Provavelmente até o terceiro filme já terão arranjado uma heroína que “dobre” o coração do Poe. Enfim, toda discussão é válida e gostei da forma respeitosa que você teve com a série Star Wars. Continue com os bons textos. Um abraço. Ass Marco Kawasaki

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