Star Wars, por obséquio

Star Wars o Despertar da Força, talvez o filme mais aguardado dos últimos anos (ou talvez de todos os tempos), finalmente chegou aos cinemas. Mas é complicado explicar para o leitor o que ele deve esperar da continuação da saga criada por George Lucas 38 anos atrás. Eu devo admitir que é bom estar de volta, mas minhas emoções com relação ao filme são um pouco confusas.

Star_Wars_despertar_da_forca_3

Trinta e dois anos se passaram desde que a Estrela da Morte foi destruída em O Retorno de Jedi (1983). Um spoiler de trinta anos não é um spoiler, é? A situação na recém-formada república é bastante caótica e há uma batalha pelo poder pela Nova Ordem, um novo governo fascista que se instaurou depois da dissolução do império. As coisas pioram a partir daí, já que Luke Skywalker desapareceu misteriosamente.

O filme começa com o ás da Resistência (os novos Rebeldes), Poe Dameron (interpretado por Oscar Isaac), descobrindo pistas que podem levar à localização de Skywalker. Pouco depois de conseguir essa informação, a vila onde ele está é atacada e ele é capturado. Temendo que isso caia em mãos erradas, ele deixa seu dróide, BB-8, que desaparece no meio do deserto. O caminho do pequeno robô se cruza com a de uma catadora de sucatas chamada Rey (Daisy Ridley) que posteriormente cruza o caminho de um desertor chamado Finn (John Boyenga).

Juntos, eles tentarão levar BB-8 e a informação que ele guarda para os líderes da resistência e, durante sua jornada, encontrarão vários personagens novos e velhos (vulgo Han Solo). O vilão da vez é Kylo Ren (Adam Driver) que busca seguir os paços de Anakin Skywalker, também conhecido como Darth Vader. Mas ele esconde segredos e, embora alguns sejam revelados, outros permanecem obscuros para serem desenvolvidos no desenrolar desta nova trilogia.

Star_Wars_despertar_da_forca_1

O cineasta norte-americano J.J. Abrams agora possui a distinção de ter trabalhado nas duas maiores franquias de ficção científica de todos os tempos: Star Wars Star Trek. Em ambas ele teve muitos acertos, mas também muitos erros e O Despertar da Força deixa evidente alguns de seus piores maneirismos, assim como suas melhores qualidades.

Este é um filme que não pára para respirar por um minuto sequer. Isso é bom, pois dá ritmo à narrativa, mas é ruim, por que impede que o filme use o que ele tem de melhor à sua disposição e isso é: seu elenco. A quantidade exorbitante de nomes que participaram é pouco utilizada, pois suas aparições são tão rápidas e as cenas tão curtas que muitos personagens ficam pouco desenvolvidos, independentemente do potencial que eles tinham, ou do quanto eles poderiam agregar ao todo da narrativa.

Star_Wars_despertar_da_forca_5

Star Wars: O Despertar da Força segue os mesmos passos narrativos da Jornada do Herói que os outros filmes. Isso já é conhecido e pouco surpreendente. Abrams foca suas atenções no casal Finn e Rey que realmente funcionam muito bem, principalmente juntos. Daisy Ridley ainda parece pouco à vontade no ambiente de Star Wars, embora ela seja uma atriz promissora. John Boyenga, no entanto, parece totalmente à vontade em seu papel e, principalmente, parece ter se divertido o tempo todo e nós nos divertimos com ele.

Star_Wars_despertar_da_forca_4Harrison Ford, retornando ao figurino de Han Solo faz um trabalho sólido como sempre, enquanto Carrie Fischer como Leia tem muito pouco tempo para explorar tudo que sua personagem tem a oferecer. O destaque, por incrível que pareça, fica por conta de Adam Driver no papel de antagonista. Conhecido como um dos atores principais da série Girls da HBO, eu nunca fui muito fã dele e sua escolha para interpretar o vilão me pareceu duvidosa. Não obstante, ele está inegavelmente perfeito – para o que seu personagem exige – trazendo nuances que Hayden Cristensen jamais sonharia em fazer.

Além da escolha de elenco, J.J. Abrams também acertou em cheio em sua postura com relação a franquia: fazer as coisas parecerem de verdade. Eram as limitações orçamentárias que davam o charme para a primeira trilogia Star Wars com seus efeitos especiais precários que conjuraram cenas maravilhosas – algo que George Lucas abandonou completamente em sua fracassada trilogia nova. Os cenários são reais, as maquiagens são reais, as naves são reais (pelo menos enquanto estão no chão) e isso traz à tona o espírito mais profundo da franquia que nós amamos há quase quatro décadas. Ele também trouxe de volta o humor, substituindo o cinismo descabido de Lucas, o que é muito bem vindo. Também dispensou o uso de Jar Jar Binkses e midiclorians e nós todos somos muito agradecidos por isso. E ter um stormtrooper negro e uma garota cheia de personalidade nos papéis principais certamente é uma evolução.

Star_Wars_despertar_da_forca_2

É uma pena, portanto, que o filme peque por excesso, aliás, como costuma acontecer em filmes dessa escala. É um pouco decepcionante que ele não use o que tem de melhor à sua disposição, que o roteiro use de resoluções simples e baratas para criar conclusões. Algumas coisas não fazem sentido, e algumas outras ficam jogadas para serem resolvidas nos próximos filmes. Faltou também um tema musical marcante por parte de John Williams que assumiu as rédeas de todas as trilhas sonoras dos sete filmes até agora. No fim, Star Wars: O Despertar da Força é uma tremenda diversão, com certeza, e uma diversão honesta. Mas fica uma pequena sensação de “podia ser melhor”.

Há muito de se esperar nos próximos dois filmes, principalmente pela quantidade de talento envolvido. Mas, principalmente por que esse talento envolvido acredita – ama – o material com o qual ele está trabalhando. E isso é essencial. O Despertar da Força podia ser melhor? Isso é relativo. Depende um pouco do que se espera dele, mas o roteiro podia sim, ter sido melhor trabalhado. Tudo bem. É bom demais estar de volta depois de dez anos.

Roberto Fideli

Jornalista e mestrando da Faculdade Cásper Líbero. Fanático por cinema, desenhos japoneses, fantasia e ficção científica. Seu sonho é ser piloto de naves espaciais, mas não tem coordenação motora para isso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *