‘Steampunk’ em quadrinhos de Zé Wellington, pela Editora Draco

Capa de Di Amorim e Wilton Santos
Capa de Di Amorim & Wilton Santos

A ficção científica ficou muito tempo sendo minimamente publicada no Brasil, de fins da década de 1980 ao início dos anos 2000. Por isso, o diálogo entre os autores nacionais e as tendências da FC internacional limitou-se muito. A partir de 2005 (no que é às vezes chamado de Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira), pequenas editoras como a Tarja, a Estronho e a Draco esforçaram-se para atualizar algumas dessas tendência, publicando antologias e romances brasileiros inspirados por movimentos e tendências literárias anglo-americanas.

Com certeza, o steampunk foi a mais produtiva dessas tendências, e a Draco, uma das editoras mais dedicadas a promovê-la. Nos últimos cinco anos, lançou pelo menos três antologias e três romances, e com o álbum Steampunk Ladies: Vingança a Vapor, passa a explorar o steampunk também nas histórias em quadrinhos.

Escrita por Zé Wellington e desenhada por Di Amorim & Wilton Santos, Steampunk Ladies aparece com apoio cultural da Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Ceará. A história é um faroeste com muitas situações típicas – o bando que assalta bancos, diligências e trens, pistoleiros, mulheres endurecidas e paisagens agrestes. A cor esmaecida e predominantemente ocre do experiente Ellis Carlo, é usada com muita habilidade para enfatizar um espaço de aridez e sol escaldante, e me lembrou as cores e a ambientação das HQs do Tenente Blueberry (que meio que faz uma ponta na abertura da HQ brasileira), de Jean Giroud (a.k.a. “Moebius”). A diferença está na tecnologia à vapor ou mecânica, bem mais avançada do que a época produziu, e no caso das próteses corporais, mais avançada do que a nossa época produziu.

Como o subtítulo deixa claro, o tema é a vingança. Depois que a diligência em que Sue viajava com seu marido William e o sogro inventor Morgan é atacada e ela se torna a única sobrevivente, Sue é resgatada pela pistoleira Rabiosa, órfã de um cientista que teve seus inventos roubados de Dellilah, a líder dos bandoleiros. As duas moças se juntam na missão de vingança contra Dellilah, que está conduzindo o seu bando para assaltar o trem-cofre criado por Morgan.

Dellilah, por sua vez, está lá para se vingar de todo o gênero masculino, depois de ser abusada fisicamente por seu companheiro Albert. Os bandidos são claramente violentos e machistas, mas o cunho explicitamente feminista do enredo – que nem por isso exclui o trio de protagonistas de aparecer com decotes amplos e improváveis – acaba, depois de muitas mirabolâncias, configurado em um duelo entre duas expressões do feminismo: uma que busca vingança contra os homens, e outra que busca igualdade. Essa leitura é um dos fatores que tornam Steampunk Ladies um interessante livro de quadrinhos. Ele realiza uma das funções mais interessantes do steampunk: a de, recorrendo a uma época em que a exploração e o abuso ocorriam em linhas mais explícitas que as de hoje, refletir sobre o quanto avançamos, ou não avançamos, ou apenas mascaramos essa exploração e abuso.

O hábil roteiro de Zé Wellington é outro fator de interesse – especialmente no que diz respeito aos flashbacks e às transições de cenas e situações, em geral originais e bem realizadas. O traço fino e correto de Di Amorim funciona muito bem com o roteiro, embora às vezes ele se perca nas proporções entre personagens, armas e outros elementos. Com cara de ser o início de uma série, Steampunk Ladies é uma história em quadrinhos vistosa, divertida, bem escrita, e original apesar de todas as referências conhecidas ao faroeste.

Arte de Di Amorim & Wilton Santos
Arte de Di Amorim & Wilton Santos

 

Apagão Extra: Ligação Direta

Capa de Camaleão
Capa de Camaleão

Apagão: Cidade sem LeiLuz, resenhado aqui em junho deste ano, é um álbum de quadrinhos escrito por Raphael Fernandes e desenhado por Camaleão, no qual a metrópole paulistana está mergulhada num blecaute perpétuo, e onde o grupo Macacos Urbanos luta contra bandos violentos, policiais chacinadores, fanáticos religiosos e multidões de craqueiros. Sob o comando do Mestre Apoema, tentam se estruturar como uma sociedade alternativa, capaz de sobreviver nesse contexto brutal, mas sem abraçar a brutalidade. A primeira aventura termina com Apeoma ferido e em estado crítico.

Também publicado pela Draco, e também financiado coletivamente via Catarse, a publicação Apagão Extra: Ligação Direta pode ser lida como uma sequência direta – embora lançada antes. Os aparelhos que mantêm Mestre Apeoma vivo estão pifando e Mandrill, um dos seus mais fiéis discípulos, enfrenta sozinho a turbulenta vida noturna de São Paulo, em busca de uma bateria nova que mantenha os aparelhos funcionando. Em rápida sucessão, Mandrill enfrenta skinheads, feministas radicais homicidas, cães bravos e um mergulho na cracolândia, jogando muita capoeira e parkour para sobreviver (ganhando mais uma cicatriz no processo). Seu retorno também vai resultar em uma revelação sobre o papel de Mandrill no futuro.

Com 24 páginas coloridas, Ligação Direta está mais para revista do que para álbum. Mas a qualidade da arte vigorosa e dinâmica de Camaleão (versátil artista da revista Mad), e seu domínio completo da cor noturna que impera na HQ, mantêm o mesmo nível. A revista também inclui quatro páginas com esboços e um excerto do roteiro de Apagão: Cidade sem LeiLuz.

–Roberto Causo

Arte de Camaleão
Arte de Camaleão

Steampunk Ladies: Vingança a Vapor, de Zé Wellington (texto) e Di Amorim & Wilton Santos (arte). São Paulo: Editora Draco, 1.ª edição, 2015, 80 páginas. Capa de Di Amorim & Wilton Santos. ISBN: 978-85-8243-8

Apagão Extra: Ligação Direta, de Raphael Fernandes (texto) & Camaleão (arte). São Paulo: Editora Draco, 2014, 24 páginas. Capa de Camaleão. ISBN: 978-85-8243-095-8

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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