“Sully”, de Eastwood, é novo estudo do mito do herói

Um grande astro do cinema, Clint Eastwood começou sua carreira de diretor em 1971 e desde então lançou quase um filme por ano. Considerando a sua idade (nasceu em 1930), e a qualidade da sua produção recente (nos últimos 20 ou 25 anos), é impressionante a sua qualidade média, versatilidade e capacidade de trabalho. É um dos melhores diretores americanos em atividade, nesse período todo.

O heroísmo é um dos seus temas, desde sempre. A sua fase vitoriosa desse período inclui o desmonte da figura heroica do pistoleiro do Velho Oeste, em Os Imperdoáveis (Oscar de Melhor Filme de 1992); A Conquista da Honra (2006), filme sobre a Guerra Mundial no Pacífico, investiga a construção do herói para fins de propaganda militar; e Sniper Americano (2014), explora a vida de um “herói” da vida real, mas sugere nas entrelinhas dos fotogramas uma vida emocional tão abafada pelas exigências do combate, que toda a questão do heroísmo parece se tornar irrelevante.

Sully: O Herói do Rio Hudson (2016) baseia-se no caso da vida real, em que o Comandante Chesley “Sully” Sullenberger, pilotando um avião de carreira em 2009, conduziu a aeronave a um pouso forçado no Rio Hudson em Nova York, depois que os motores foram atingidos por uma revoada de pássaros. Quase imediatamente, Sully foi saudado como herói pelos passageiros, pela imprensa e pela opinião pública. Mas a investigação oficial do incidente levanta a possibilidade de ele ter cometido um erro de cálculo que teria levado à perda da aeronave e ao desconforto dos tripulantes e passageiros, que sofreram o trauma do pouso e do resgate nas águas geladas do Hudson.

O incidente em si é um flashback distribuído ao longo de uma narrativa complexa. Mas há um elemento criativo logo na abertura — uma cena que demonstra o que poderia ter acontecido, se o pouso na água não tivesse sido bem sucedido. A sequência, vista pelos olhos da imaginação de Sully, traz a terrível imagem do Airbus A320 sem potência, voando entre os arranha-céus novaiorquinos até explodir contra uma construção baixa. A imagem precisa e bem realizada evoca com um gosto amargo na boca e um aperto no coração, os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

No primeiro plano, está a investigação oficial da agência americana de administração aérea. A hipótese sugerida pelos oficiais é de que um dos motores ainda estaria funcionando e que Sully teria tempo para um pouso controlado em um de dois aeroportos disponíveis. O filme sugere a tentativa da empresa aérea e do fabricante do avião, de imputar o incidente aos pilotos. Tom Hanks, que faz o papel do comandante, traduz em sua fisionomia, tom de voz e postura física o temor de ser responsabilizado. E de realmente ter cometido um erro quase fatal. Outros flashbacks distribuídos ao longo da narrativa são biográficos, e expressam o quanto Sully era um piloto experiente, tirando o brevê ainda jovem e tendo pilotado caças a jato na Força Aérea dos Estados Unidos.

Um dos ponto fortes do filme está em que, mesmo que o espectador saiba qual foi o desfecho, Eastwood o deixa em permanente suspense. Para isso, o roteiro é muito importante, mas também a direção precisa e o desempenho extraordinário dos atores. Uma decisão especialmente crucial do diretor foi a de nos colocar dentro da cabine de pilotagem. Com uma técnica impecável de filmagem e de montagem, o espectador tem sempre uma vista instintiva, natural, da situação tática do avião e dos seus pilotos, conforme o tempo passa e as opções de salvação diminuem.

O estilo realista de Eastwood — especialmente o desenvolvido nesta fase mais recente de sua carreira — faz com que o virtuosismo técnico e a complexidade do roteiro pareçam se resolver diante dos olhos do espectador com uma enganadora facilidade. Tudo o mais no filme nos insere nos lugares e nos momentos que ele explora. Principalmente, é claro, no seu núcleo, que é o pouso na água e o resgate dos passageiros. Não apenas vivenciamos os fatos pela perspectiva de Sully, mas também das comissárias de bordo, dos passageiros e das pessoas que se lançaram ao resgate. Tudo com forte dramaticidade.

O filme enfatiza que o verdadeiro heroísmo está nas pessoas comuns, aquelas que, no dia a dia, assumem suas responsabilidades e fazem o que é preciso. O aspecto do herói que Clint Eastwood parece construir neste filme admirável é o da pessoa que é herói porque estava completamente focada no instante da crise. A pessoa que estava lá e que tomou as decisões. O fato verdadeiramente extraordinário, que nos faz pensar no imponderável da vida, é que essas decisões poderiam ter sido tão desastrosas, quanto triunfantes.

— Finisia Fideli & Roberto Causo

Sully: O Herói do Rio Hudson (Sully). Dirigido por Clint Eastwood e escrito por Todd Komarnicki. Com  Tom Hanks, Aaron Eckhart, e Laura Linney. EUA, 96 minutos, 2016.

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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