Relembrando The Last of Us

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Há algumas semanas, assistindo à conferência da Sony Computer Entertainment na E3, surgia um frio na barriga a cada vez que a produtora Naughty Dog era mencionada. A equipe foi estrela de dois anúncios: um segundo trailer da desejada remasterização para PS4 de The Last of Us e, por fim, o anúncio aos 45 do segundo tempo de Uncharted 4: A Thief’s End. Estranhamente, o que mais causou arrepios em quem escreve, que é obcecado pela franquia Uncharted, fora o primeiro. Antes de discorrer sobre o que talvez seja a maior obra-prima audiovisual dos anos recentes, deve-se primeiro contar resumidamente o currículo da Naughty Dog.

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Desde a década de 90, a Naughty Dog conquistava o apreço de muitos gamers. Sua franquia Crash Bandicoot até hoje é amada e relembrada, porém se encontra infelizmente inativa. Da franquia, bastante presente no PS1, surgiam desde jogos platforming (personagem deve pular de plataforma em plataforma, desviando de obstáculos, no estilo conhecido em Mario e Prince of Persia) até os famosos karting. Crash pode estar há um tempo fora de ação, mas a influência de seus games é incontestável. Uma das primeiras, curiosamente, era de autoria da própria Naughty Dog, Jak and Daxter: The Precursor Legacy, do início da era PS2. Novamente, um game de platforming, não muito diferente de seu antecessor. As coisas começaram a ficar diferentes na sequência, Jak 2. Não só eram adicionados elementos como armas de fogo (ou laser) e veículos, como agora havia uma narrativa essencialmente cinematográfica, com cutscenes bem elaboradas e diálogos por vezes inteligentes. Isso se repetiu no terceiro game da série, tornando-se a principal característica da Naughty. Chegou a a geração PS3 e os gamers testemunhavam o início de uma franquia especial. Nathan Drake iniciava sua jornada em Uncharted: Drake’s Fortune, um marco para as narrativas e estética de games. O enorme esmero de produção se repetiu gloriosamente em Uncharted 2: Among Thieves e Uncharted 3: Drake’s Deception. É viável dizer que o segundo game da série seja de longe o melhor, mas isso é assunto para outra hora. Por fim, a Naughty Dog, sendo por alguns criticadas por sua leveza e falta de urgência gerais em seus games, lança, em 14 de Junho de 2013, sua (in)contestável obra-prima, The Last of Us.

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The Last of Us é um game de survival-horror que faz jus ao gênero. No estopim de uma pandemia fúngica, Joel vê sua vida pessoal ruir diante de seus olhos, em uma traumatizante noite representada brilhantemente na sequência inicial do game, que toma um ponto de vista inesperado. Passam-se duas décadas e o protagonista acorda no “conforto” de seu novo lar. É um contrabandista requisitado no pós-apocalipse, recebendo logo após esta apresentação uma missão a ser concluída: transportar um “item” de alto interesse para os Fireflies, organização clandestina que luta contra o governo para encontrar métodos mais eficientes de combater o fungo que se espalhou, transformando suas vítimas em criaturas animalescas em comportamento e com protuberâncias grotescas que lhes dão a aparência, bom, bastante nojenta.

O “item” antes citado se revela na forma de uma garota adolescente, Ellie, mas o motivo de sua importância será deixado de lado para evitar spoilers mais significativos. Os dois, Joel e Ellie, partem rumo à uma jornada épica (sem brincadeira) que fará os jogadores testemunharem de maneira belíssima a ligação que se fortalece entre os dois. Tudo isso culmina em um dos finais mais (talvez O mais) moralmente complexos e sutis que QUALQUER plataforma, seja cinema, HQs ou games já apresentaram.

Os dois personagens são muito bem dublados e interpretados pelos atores Troy Baker e Ashley Johnson. Baker é a nova estrela do momento na indústria dos games, tendo emprestado suas voz também a Booker DeWitt, de Bioshock Infinite, Coringa, em Batman Arkham Origins e, por fim, Ocelot (!) no aguardado Metal Gear Solid V: The Phantom Pain. A Naughty Dog costuma catapultar grandes carreiras de intérpretes para games, o mais famoso membro da turma sendo o fantástico Nolan North, que encontrou um de seus ícones no personagem Nathan Drake, da série Uncharted. Ashley Johnson, por sua vez, é bem menos conhecida, porém fez, em 2012, uma curiosa ponta em um dos maiores blockbusters dos tempos recentes. Lembram da garçonete salva pelo Capitão na batalha final Os Vingadores, incluindo até mesmo uma troca de olhares intrigante entre os dois? Pois é, pouco se imaginava que aquela pequena presença se tornaria em algo tão intenso quanto a personagem Ellie. Johnson chega a carregar sequências inteiras do game nas costas, demonstrando um brilhantismo em sua interpretação frágil, doce mas também forte da adolescente. Soma-se isso a um roteiro impecável de Neil Druckmann e uma trilha sonora soberba do ótimo compositor Gustavo Santaolalla, tendo como resultado final uma narrativa assombrosamente eficaz e ambiciosa em suas discussões.

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Nos termos de gameplay, que para muitos é o fator mais importante quando se fala de games, The Last of Us não decepciona frente à sua qualidade narrativa. Este, sem dúvida, é o esquema de controles a ser seguido para os futuros survival-horrors. Uma mistura de combate corpo-a-corpo, tiroteios estratégicos e criação de itens, sem falar nos sutis elementos platforming. A perspectiva próxima aos personagens ajuda não só a criar uma forte ligação para com eles, como também permite que a tensão seja imensurável nas cenas de terror, fazendo o que Resident Evil 6 deveria ter realizado mas acabou se atrapalhando, com a mesma perspectiva “por cima do ombro” arruinando certas cenas que deveriam ser bem mais eficientes. O gameplay de The Last of Us não é revolucionário, mas assim como Cidadão Kane também não era para o cinema em sua época, é o polimento máximo de todas as técnicas envolvidas, sendo um apogeu para sua era. Até mesmo o ótimo Watch Dogs bebeu da fonte do game da Naughty Dog, com perspectiva parecida e até uma mecânica de criação de itens.

Há tanto mais que possa ser dito sobre The Last of Us, porém o autor deste review não procura gastar o tempo dos gamers que ainda não puseram as mãos neste magnum-opus das narrativas contemporâneas. Quem tiver seu PS3 na ativa e tem tempo para jogar (afinal é uma história longa de cerca de 20 horas com alto valor de replay), pode usar seu dinheiro bem guardado para adquirir uma cópia ou até mesmo procurar na seção de usados. Donos de PS4, porém, podem esperar até 29 de Julho deste ano, a data de lançamento da remasterização desta obra especial, com 60 frames por segundo de performance, maiores detalhes visuais e também o conteúdo para download Left Behind incluso no disco. Espero que tal especial desperte ou ajude a aumentar a urgência de geeks/gamers pela descoberta de um novo marco do mundo das narrativas ficcionais.

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