Tranformer: todas as facetas de Lou Reed reunidas em uma biografia

por Beatriz Blanco

lou_reed_transformer_capaLewis Allan Reed, ou Lou, costumava dizer que não tinha uma identidade definida, apenas absorvia traços interessantes de pessoas próximas tendo, segundo ele mesmo, oito personalidades diferentes. Mas apesar dessa suposta fluidez, Lou se tornou conhecido não só pela sua música mas também pela sua personalidade forte e difícil. O cantor e compositor é lembrado por infernizar parceiros musicais, manipular seus amigos, humilhar suas companheiras e detonar jornalistas.  E a biografia de Victor Bockris, Transformer – A História Completa de Lou Reed (Editora Aleph, 512 páginas) consegue retratar toda a complexidade do artista torturado e torturador, dos anos como frontman do Velvet Underground até sua irregular e controversa carreira solo.

Bockris é autor de um dos mais importantes livros sobre o The Velvet Underground e trabalhou como assistente de Andy Warhol e colaborador da revista do artista, Interview. Por isso conhece bem o universo que gestou Lou Reed: a euforia criativa regada a drogas e intrigas da Factory. Bockris assume no livro o papel de um narrador onisciente e nada neutro, que expõe e julga cada pequena mesquinhez de Reed. Porém o autor não é moralista ou paternalista em nenhum momento: o tom é como aquele usado entre amigos próximos que curtem se detonar. A tradução de Bruno Federowski e Marcia Men preserva essa intimidade, mantendo a voz pessoal e irônica do autor que escrutina Reed sem nenhuma piedade.  Passaram alguns errinhos de revisão, como o nome do cachorro de Reed que é grafado como Barão e Baron em diferentes momentos do livro. Mas nada que comprometa a qualidade da edição bem cuidada, com notas meticulosas, entrevistas extras e fotos da trajetória do astro.

A grande qualidade do livro é não negar a genialidade de Reed, mas também não esconder sua canalhice. Bockris descreve com detalhes e comentários mordazes como o artista se ressentia do talento de John Cale no Velvet Underground − o que levou a se sabotar espetacularmente e provocar o fim da banda − e mostra como essa relação de dependência e inveja doentia com colaboradores talentosos foi marcante na carreira de Reed. Era o grande paradoxo do músico: ele só conseguia brilhar em sua melhor forma quando trabalhava com colaboradores competentes − como Cale no Velvet Underground, David Bowie em sua fase glitter  e o guitarrista Robert Quine em alguns dos seus melhores trabalhos solos − mas não conseguia dividir os créditos. Chegou ao ponto de, várias vezes, remixar álbuns finalizados sem o conhecimento de sua equipe para fazer sobressair sua voz e guitarra sobre o resto da banda, destruindo o meticuloso trabalho de técnicos, músicos e produtores. Um perfeito babaca.

Partindo do infame tratamento com eletrochoques que Reed foi submetido na adolescência e que ele mesmo contava repetidamente como um evento essencial em sua vida, Bockris constrói uma análise psicológica profunda, em que caracteriza o cantor como um bully inseguro e mimado que sentia prazer em chocar as pessoas a sua volta e em usar agressividade para manipular família e amigos. A predileção de Reed pela decadência e culto à autodestruição em suas letras é esmiuçada por Bockris como o prazer pelo choque típico de um garoto mimado da classe média, eternamente tentando escandalizar seus pais por pura birra. O cantor mentia em letras e relatos sobre ter vindo de uma família disfuncional repleta de abusos e espancamentos, quando na verdade era fruto de um lar bastante convencional da década de 50.

O episódio dos eletrochoques, que choca pela sua violência e homofobia, é narrado como a tragédia anunciada de pais desesperados e desinformados da época, cegamente confiantes na medicina e sobrecarregados com toda a carga cultural conservadora dos subúrbios americanos. Apesar dos pais de Reed amarem e se preocuparem com o filho durante toda a sua vida, o tratamento da adolescência causou um distanciamento definitivo entre filho e pais.  Reed passaria o resto da vida tentando ao mesmo tempo impressionar e chocar sua família, e estenderia esse comportamento as suas performances. O prazer em horrorizar os respeitáveis cidadãos de classe média fez de Reed o par perfeito para Andy Warhol quando o artista produziu o Velvet Underground e o integrou a seu espetáculo multimídia Exploding Plastic Inevitable, e mais tarde, já na sua carreira solo, motivou obras como Metal Machine Music, um álbum composto por uma hora de ruído branco impossível de suportar.

 Mas ninguém foi tão maltratado por Reed quanto suas companheiras, e nesse ponto o livro peca ao não dar voz a essas mulheres. Apenas a primeira namorada Shelly Albin e Nico são ouvidas pelo entrevistador, e conhecemos os infortúnios das outras mulheres que se relacionaram com Reed apenas pela voz de terceiros. Algumas passagens são bem chocantes, como quando um grande amigo de infância do cantor que relata ter expulsado Reed de sua casa por ele bater na sua então esposa Bettye, que é descrita por outros personagens da biografia como ‘sempre com um olho roxo, diante da esposa e filhos do anfitrião. Bockris também derrapa na transfobia quando fala de Rachel, companheira transexual de Lou, fazendo confusão com orientação sexual e identidade.

Mas mesmo com essas falhas o autor não hesita em definir Reed pelo que ele era: um misógino com sérios problemas de aceitação em sua bissexualidade, que descontava em suas companheiras seus problemas de autoestima. A homofobia internalizada de Reed era tão forte que em seus últimos anos ele chegou ao ponto de negar ter tido qualquer relacionamento homossexual em sua vida, negando até mesmo seu envolvimento anterior com Rachel, que em sua transfobia ele via como um homem.

O livro perde força em sua parte final, um acréscimo à primeira edição de 1994 feito após a morte de Reed em 2013. Bockris se dedica a analisar o relacionamento entre Reed e Laurie Anderson, último casamento do artista, colocando em paralelo as letras escritas por ambos nesse período e se derramando em elogios sobre como Anderson tornou Reed uma pessoa melhor. Além de entediante, a defesa apaixonada dessa tese por Bockris não convence e soa como arrependimento após a morte do astro pelas críticas pesadas feitas na primeira edição. O autor chega a defender o fraco Lulu, o último álbum do cantor e um dos mais mal resenhados da história do artista, como o melhor de sua carreira.

Mas mesmo o fraco e sentimental final não tira a grandeza do trabalho de Bockris. Transformer é uma biografia muito completa, única e visceral. E também é um guia excelente para ouvir os álbuns de Reed, já que detalha cada um deles em relação à letras, composição e produção musical. Leitura obrigatória para os fãs de rock alternativo e uma prova de que dá para fazer um retrato justo de um artista sem esconder seu lado feio.

Beatriz Blanco é editora do site especializado em games Bonus Stage e do MinasNerds, além de uma grande fã da era glitter do rock e do Velvet Underground.

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