“Violent Cases”: uma parceria Neil Gaiman e Dave McKean

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Capa: Paulo Inoue
Capa: Paulo Inoue

Neil Gaiman é a figura mais midiática do mundo da fantasia e ficção científica, rivalizando e até superando Stephen King. Pois Gaiman está na literatura, nas histórias em quadrinhos, no cinema e na televisão já há quase trinta anos. E numa escala diferente da de King, ele consegue pisar diretamente em cada uma das formas de arte e firmar a própria personalidade.

A publicação no Brasil de Violent Cases, pela Editora Aleph em 2014, recupera o início dessa carreira brilhante e o marco de uma parceria artística que também parece ser singular em várias dimensões: Neil Gaiman, o escritor, e Dave McKean, o artista, tem em conjunto ou individualmente deixado suas marcas em vários meios, e interpolinizado o enfoque um do outro. O exemplo que me parece mais valioso são alguns momentos surrealistas do aclamado O Oceano no Fim do Caminho (The Ocean at the End of the Lane), que trazem a marca das criativas colagens de McKean.

A história tem um narrador — com a cara do Gaiman da época — que se recorda de um incidente quando ele tinha quatro anos e meio de idade. Ou tenta recordar, porque esse narrador pouco confiável assume abertamente as suas dificuldades de memória. Assim como em O Oceano no Fim do Caminho, outra situação em que um homem maduro se recorda de um instante transformador de sua infância, há um choque do pai com o menino. Com o braço ferido, a criança é levada a um osteopata que, casualmente, se revela como o massagista pessoal de Al Capone.

Numa hábil costura narrativa, o menino tenta reconstruir suas lembranças. As conversas no incomum consultório do oesteopata, localizado em um porão, lançam as primeiras sementes de curiosidade infantil quanto ao mundo violento dos adultos — de uma violência que vai além da violência física e moral que ele encontra em sua família. Mas há em sua mente uma confusão entre os seus medos infantis — do mágico de salão que ele chama de “o Careca”, das crianças que não são suas amigas — e aquilo que o ex-associado de Capone lhe conta.

A narrativa do homem, cuja aparência se altera conforme o narrador adulto se lembra de detalhes enquanto conta, começam no porão e se concluem num bar do hotel onde acontece a festa de aniversário de uma amiguinha da idade do menino. Nesse hotel, ele é confrontado outra vez com os medos que há tinha anunciado — do Careca e das outras crianças —, e isso o faz fugir para o bar do hotel, onde encontra o osteopata uma última vez. Há uma sugestão de que o encontro não é casual, mas de algum modo antecipado pelo homem.

A misteriosa conclusão da história parece ser uma confusa mistura de parte de um sangrento episódio protagonizado por Capone e contado pelo osteopata, com os medos do menino. Polido durante uma passagem de Gaiman pelo famoso workshop de ficção científica e fantasia criado por James Blish em Milford on Sea, na Inglaterra, a história tem um final que entra no terreno do macabro — embora mantenha a incerteza narrativa.

A arte de McKean, para quem conhece os seus muitos exemplos de virtuosismo do lápis e da pena, das colagens sugestivas, imagens borradas e formas distorcidas, é perfeita para esse tipo de evocação da lembrança falha, da projeção da subjetividade sobre as formas concretas da existência. Daí usar tantas fotos, mapas, cartazes de filmes e outros artefatos culturais em suas colagens — e do narrador de Gaiman dizer o tempo todo que tenta se “ater aos fatos”, na sua narrativa fantástica.

Tanto a introdução de Paul Gravett (autor do admirável estudo das HQs japonesas, Mangá: Como o Japão Reinventou os Quadrinhos) para essa edição, quanto os textos de posfácio (na verdade, introduções de Alan Moore e do próprio Gaiman para edições anteriores),  contextualizam o início da parceria Gaiman-McKean, quando a dupla escreveu essa história para a revista de Gravett, Escape em 1987. Além disso, esses textos situam sutilmente Violent Cases no momento maiúsculo do romance gráfico da década de 1980, colocando-o ao lado de marcos como O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, e Watchmen, de Moore & Dave Gibbons. “Não é um livro”, Moore ressalva, “mas um conto”. Talvez, um “conto gráfico”, ou seja, uma narrativa mais curta que partilha das mesmas qualidades do romance gráfico.

Às vezes referido erroneamente como “novela gráfica”, o rótulo vem do inglês graphic novel e foi concebido como um termo respeitável para substituir o “comics” — como as HQs são chamadas em inglês (um termo que indica uma diversão leve e cômica). O esforço de Miller, Moore, Gaiman e outros escritores vai além de uma substituição, porém, buscando uma abordagem literária para as histórias que teriam esse rótulo. O mergulho na subjetividade de personagens-ponto de vista, o emprego de múltiplas vozes, e a inclusão de truques de “montagem” com uma amplidão de recursos gráficos, a aproximação maior com o cinema, e o esforço de estender os limites da narrativa de quadrinhos são características que apontam para essa abordagem literária.

Infelizmente, e quase que de imediato, “romance gráfico” virou sinônimo do que antigamente chamávamos de “álbum de luxo”. Ou apenas de uma HQ publicada em formato de livro. Obras com as qualidades literárias pretendidas por Miller, Moore e Cia. foram ficando mais raras. Embora o desejo de tornar a arte dos quadrinhos mais madura e mais adulta, tecla martelada por Gravett e Moore aqui — e por Miller e muitos outros em outros lugares —, tenha tido reflexo até mesmo nas HQs de super-heróis.

A edição de Violent Cases feita pela Aleph é de alta qualidade, mesmo com alguns problemas — a tradução meio desajeitada da introdução de Gravett, a indicação que o posfácio de Gaiman seria da edição original de 1987, mas datada de 1991 no final, e, principalmente, a arte de capa do designer brasileiro Pedro Inoue não faz jus à riqueza visual nem de assunto, da história de Gaiman & McKean. Mais importante, o álbum vai além de uma curiosidade cult em torno da dupla. Assim como O Oceano no Fim do Caminho, expressa a dificuldade de uma criança sensível em entender o mundo dos adultos, e evoca o pleno potencial artístico do romance gráfico.

—Roberto Causo

Violent Cases, Neil Gaiman & Dave McKean. São Paulo: Editora Aleph, 2014, 64 páginas. Capa de Pedro Inoue. Tradução de Érico Assis. Introdução de Paul Gravett. Posfácios de Alan Moore e Neil Gaiman. ISBN: 9-788576-571834

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