A volta de Eu Sou a Lenda, em edição de luxo

eu-sou-a-lenda-capa-alephAté a década de 1950, a maior parte da ficção científica escrita nos Estados Unidos estava restrita às pulp magazines. Naquela época, formou-se um mercado para a republicação, em livro, de romances seriados nessas revistas – e também de romances originais, que podiam divergir das tendências e imposições editoriais desses periódicos. Outro fato é que as revistas haviam se diversificado naquela década, e publicações como The Magazine of Fantasy & Science Fiction (criada em 1949) e Galaxy (1950) já apostavam em histórias mais literárias, carregadas de ironia e comentário social.

Eu Sou a Lenda, romance curto de Richard Matheson – que estreou em The Magazine of Fantasy & Science Fiction em 1950 –, é produto desse processo, um romance original de 1954, e uma dessas obras da ficção científica que se recusam a morrer, reencarnando de tempos em tempos, como o filme de 2007 dirigido por Francis Lawrence com Will Smith no papel do protagonista, sua terceira versão no cinema. E uma dessas obras que sempre parecem ter algo a dizer sobre o nosso tempo.

O próprio Matheson (1926-2013) é uma lenda no cinema e na literatura popular, autor de vários roteiros para a celebrada Além da Imaginação (The Twilight Zone), e criou Kolchak e os Demônios da Noite (The Night Stalker), duas das minhas séries favoritas.

Eu Sou a Lenda, antes publicado com esse título pela Novo Século em 2007 e pela Francisco Alves em 1981 (e antes disso na coleção Argonauta, de Portugal, como Mundo de Vampiros), é ambientado no futuro próximo e oferece um tratamento científico do tema do vampiro. Matheson foi pioneiro nessa área, vista posteriormente até no Brasil, com uma série de histórias escritas por Gerson Lodi-Ribeiro. Além disso, seu romance remete às tradições das histórias de fim do mundo por praga e do “último homem sobre a Terra”.

O herói, Robert Neville, vive sozinho no mundo. Não há, aparentemente, nenhum ser humano além dele no planeta. Isso ocorreu depois que uma guerra atômica levou à mutação de uma bactéria que produz mortos-vivos, e que, esta sim, destruiu a civilização como a conhecemos. Neville perdeu a esposa Virginia e a filha Kathy para a praga, e agora mora em uma casa de subúrbio cercada de alho e mantida por um gerador. Ele vive uma vida auto-suficiente, mas toda noite os vampiros, liderados por seu vizinho Ben Cortman, vêm assediá-lo, exigindo que ele saia, as mulheres vampiras (muito conservadas) exibindo sua nudez para ele. O romance é compacto e econômico tanto na linguagem quanto nos eventos que descreve. Há flashbacks bem cuidados que levam o leitor à vida anterior de Neville.

Tudo passa pela percepção do personagem. Até certo ponto, o livro é um estudo de sua personalidade – suas ansiedades sexuais de homem solitário, seu refúgio no álcool, sua luta pessoal para entender cientificamente o fenômeno, seu esforço para conquistar a confiança de um arisco cachorro vira-latas que aparece na vizinhança. O andamento não tem a rapidez que se poderia antecipar, a partir das adaptações da história como filmes de ação.

A complicação mais importante está no breve contato de Neville com uma mulher chamada Ruth, que aparentemente seria uma outra imune como ele – mas que pode ser agente de uma terceira força, um grupo de homens e mulheres que possui o bacilo do vampirismo, mas que conserva (Neville especula que em razão de uma mutação desse bacilo) a inteligência.

O ataque final desse grupo contra ele se dá num momento em que Neville havia se reconciliado com a sua condição, superando o alcoolismo e chegando a se afeiçoar ao insistente Ben Cortman. Percebe-se ao longo da narrativa valores de classe-média colocados em cheque pelo absurdo da situação circundante – refletindo a condição solitária de um indivíduo dotado de certa sensibilidade, cercado e pressionado constantemente por seus vizinhos a assumir um outro comportamento. É possível sentir a revolucionária década de 1960 pulsando nas entrelinhas – ou apenas a paranoia social típica do período do pós-guerra e da Guerra Fria. O livro nos lembra que a ficção popular já havia reivindicado os subúrbios como geografia literária, antes do pós-modernismo americano.

O final, pouco respeitado nas adaptações, levanta algumas perguntas particularmente instigantes: aquilo que determina o mal é relativo, e o herói de um grupo é o monstro de outro? Quando a condição humana se torna minoritária, o próprio ser humano penetrará no território das lendas? Que papel o herói humano assumirá então – o de mito, ponto em torno do qual uma nova comunidade criará a sua identidade coletiva? Em todo caso, uma alteridade radical, minoritária e ameaçadora, o que faz o leitor também pensar em valores sexuais, étnicos ou culturais divergentes, alienados no seio de um grupo social dominante.

As questões são várias, e profundas, mas as imagens e situações são também cativantes, daí não só o repetido retorno da obra de Matheson aos cinemas, mas a sua influência sobre autores posteriores dentro do horror e da ficção científica, incluindo aí ninguém menos que Stephen King.

–Roberto Causo

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Eu Sou a Lenda (I Am Legend), de Richard Matheson. São Paulo: Editora Aleph, 2015, 384 páginas. Capa dura. Tradução de Delfim. ISBN: 9788576572718

Roberto Causo

Escritor de ficção científica e fantasia, autor dos romances "A Corrida do Rinoceronte" e "Glória Sombria", e das novelas premiadas "Terra Verde" e "O Par".

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