X-Men: Apocalipse – Queima de Cartucho

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Tem algo de profundamente errado em X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, EUA/CAN, 2016). A última produção do estúdio Marvel sofre com excesso de personagens, excesso de tramas, excesso de efeitos especiais, excesso de excessos. Mas, seu maior problema talvez seja o fato de que ela não se parece com um filme de Bryan Singer.

Singer, 50, havia dirigido o filme cultOs Suspeitos (1995), e a decente adaptação da história de Stephen King, O Perfeito Aprendiz (1998), antes de capitanear o primeiro X-Men, em 2000. O diretor, que é abertamente gay, decidiu se aventurar na adaptação de histórias em quadrinhos porque, em suma, X-Men fala sobre preconceito e sobre indivíduos que são marginalizados perante o resto da sociedade. Era o começo das grandes produções da Marvel e hoje, dezesseis anos depois, ainda é o melhor filme da franquia.

Desde então, Singer se aventurou em filmes de época (Operação Valquíria, 2008), e até na adaptação de Superman: o Retorno (Superman Returns, 2006), que, na época de seu lançamento, foi bem recebido mas que hoje em dia já não é tão bem visto. Quanto à franquia X-Men, esta passou por maus bocados com o diretor Brett Ratner (X-Men: O Confronto Final, de 2006), Gavin Hood (X-Men Origens: Wolverine, 2009), e Matthew Vaugh (X-Men First Class, 2011).

Algo estava claramente errado com os super-heróis, o que pavimentou o retorno de Singer à franquia em 2014 com o surpreendentemente bom X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, onde o diretor nova iorquino resgatou a dinâmica entre os personagens e o elemento emocional que estava faltando nos últimos filmes.

Então, o que faz com que o primeiro X-Men Dias  de um Futuro Esquecido sejam os melhores filmes da franquia? Bom, provavelmente tem algo a ver com o fato de que eles são econômicos e que Singer tem um faro apurado para dirigir atores, o que ajuda a explorar as dinâmicas e os relacionamentos entre os personagens, como eles são afetados pelo mundo em que vivem e vice-versa.

Por isso é estranho ver tanta evolução de First Class para Dias de um Futuro Esquecido desaparecer quase que por completo em Apocalipse. Com o filme anterior, o estúdio conseguiu, de uma forma muito inteligente, dar um reboot na franquia que agora conta com novos atores, novos personagens e o fato de não estar mais preso à trilogia original (que começou com o próprio Bryan Singer).

Depois dos eventos de Dias  de  um Futuro Esquecido, o mundo do século XXI adquiriu pleno conhecimento dos mutantes. O professor Xavier (James McAvoy) continua como diretor de sua escola para mutantes, enquanto Magneto (Michael Fassbender) se escondeu na Polônia, onde se casou e teve uma filinha. Bem, circunstâncias dramáticas colocarão os dois personagens (mais Mística, interpretada por Jennifer Lawrence e uma cambada de outros mutantes) em rota de colisão com um poderoso vilão: En Sabah Nur.

En Sabah Nur (interpretado pelo sempre esplêndido Oscar Isaac), é um mutante super-poderoso que se tornou uma espécie de Deus no Egito Antigo até ser traído pelos seus camaradas e aprisionado em uma câmara no fundo de uma pirâmide. Bom, eis que ele despertou e, confrontado com o que o século XX tem a oferecê-lo, não gostou nem um pouco do que viu. Então ele decide destruir tudo e criar um novo mundo para os mutantes mais poderosos. Ele recruta quatro mutantes (que são referenciados como os Quatro Cavaleiros do Apocalipse), incluindo uma jovem Ororo Munroe (Tempestade, interpretada por Alexandra Stipp) e Magneto, para ajudá-lo.

Se as motivações de En Sabah Nur são dignas ou não, fica a cargo do espectador dizer. O que importa é que Oscar Isaac, mesmo por trás de uma horrorosa maquiagem azul ainda é capaz de demonstrar expressividade e nuances de um personagem que poderia ter sido mais bem explorado do que foi. Ele é ponto forte de um filme mais preocupado com grandes cenas de ação (que realmente são muito boas), do que desenvolvimento de personagens.

Um destaque positivo fica por conta do personagem Mercúrio, interpretado por Evan Peters que, como no filme anterior, tem as melhores cenas. Uma sequência que apresenta brevemente Wolverine (Hugh Jackman) também vale o preço do ingresso. Negativamente, contudo, ficam as atuações de Jennifer Lawrence (Mística) e Sophie Turner (Jean Grey). Lawrence não trás nada de novo ao papel e Turner parece realmente mal escalada. Michael Fassbender e James McAvoy igualmente se mostram claramente presos em um roteiro fraco com diálogos ruins e não conseguem mostrar suas habilidades de atuação.

No que Dias de um Futuro Esquecido parecia cuidadosamente feito, pensado e conduzido, Apocalipse parece feito às pressas, sem calma, sem ponderação e sem economia. Não que o filme seja desprovido de qualidades, como humor e boas cenas de ação, mas ele parece ser uma queima colossal de cartucho: depois do aparecimento de um vilão como Apocalipse, o que há mais para se esperar da franquia? Hugh Jackman já avisou que irá  aposentar o papel de Wolverine depois do próximo filme solo do personagem. Com o vilão e o mascote fora da série, fica difícil se manter entusiasmado com os próximos filmes. E se Bryan Singer parecia ter as mãos mais seguras para conduzi-los… Hoje já não parece tanto.

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